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O Senhor

O Senhor
Matheus Roberto
dez. 2 - 3 min de leitura
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Aos passos do infernal sol da tarde, vou ao dentista verificar a minha dor. Numa salinha separada das demais, um vazio como a sala acompanha a minha chegada. Mas lá está o personagem perfeito para prosear: Seu Paulo. Senhor de 75 anos de idade, mas de língua jovial. Olhava para mim e descartava todas as suas ideias sobre as coisas. O prefácio do seu discurso iniciou-se com a crítica ao SUS e aos médicos. Relatou-me sua vasta experiência trabalhando em hospitais, disse que a corrupção dos falsos diagnósticos é o cume da miséria burguesa. Os médicos passam diagnósticos imprecisos, e as soluções dos problemas, maiores custos com cirurgias ou medicamentos específicos.

Fitei seus olhos austeros e ouvi atento às nuances dos seus pensamentos. Apesar da minha dor bucal, estava inapto para questioná-lo, mesmo se quisesse. Notei a beleza dele, apesar da idade. Corpo comum, mas de acessório, um chapéu amadeirado a qual geralmente marca-nos na memória. É curitibano de natureza, com olhos penetrantes, passava a imagem de alguém de princípios firmes.

Queixou-se das enfermidades do tempo, ou melhor dizendo, de sua vitalidade física. Corria 10 quilômetros diariamente, mas o massacre da idade fez o osso de sua perna esquerda enrijecer. Quando descreveu sua crença ética, minha atenção cristalizou-se num mármore, nada mais poderia quebrar o meu foco de interesse. Relatou o diálogo com um médico do trabalho, rico, porém infértil. Indagou a ele a possibilidade de adoção, o médico na magnânima arrogância respondeu que não precisa de ninguém. Seu Paulo, incrédulo com tal ideia, replicou o médico sua indignação. Falou que ele é um monstro, incapaz de amar ou ajudar alguém. Quase se pelejaram aos socos no hospital. Para ele, o médico era ingrato e ausente de bondade humana; de certa maneira, concordo com Paulo. A rispidez do modo como tratou Paulo denunciou sua mazela psicológica. Talvez alguém por não ter companhia de ninguém, muito menos da família, aspirava seu ódio nos outros.

Nessa maravilhosa conversa, o último tópico de Paulo foi em relação ao casamento, típico de senhores de outrora. Havia dito a mim, que não não sou casado, a encheção de saco proporcionada pelo casamento. Mencionou: “imagina você aí, com dor de dente tendo que aguentar a mulher reclamando no seu ouvido. Mandando você fazer isso, fazer aquilo. Tem cara que não aguenta e mata”. Senti-me desconfortável com tal frase, apesar do seu discernimento do certo e do errado quando ele disse que isso não justifica e nem ser correto. O mais irônico foi sua esposa emergir do corredor um minuto depois de seu fatídico enunciado. Ela, em suma, marcou outro dentista em outro local e horário. Percebi uma pálida ira nessa conversa, o que imediatamente verbalizou a infelicidade matrimonial de Paulo.

Despedi-me de sua presença enquanto a dor voltava a consumir meus pensamentos.




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