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O que tem nos definido até então? 2020 escancarou, mas também...

O que tem nos definido até então? 2020 escancarou, mas também...

Na minha infância e adolescência, período entre as décadas de 1980 a 2000, aprendi que os portugueses “descobriram” o Brasil e que nessa “descoberta" foi estabelecida uma relação harmoniosa de trocas de produtos entre os europeus e indígenas. A escravidão dos ditos “não-civilizados”, indígenas e negros, parecia uma necessidade. A catequização importante para “civilizá-los”. O Brasil colonial tornouse Império, depois República, com algumas lutas e resistências, mas sem muita importância. Significativos foram Dom Pedro I, que rompeu com o pai e declarou a independência do Brasil; sua neta, a princesa Isabel, que com benevolência assinou a Lei Áurea; e os militares que proclamaram a República com o povo assistindo “o espetáculo” sem entender muito bem o que era aquilo, afinal, as coisas mudaram para continuarem sendo as mesmas.

Nessa narrativa única, acrítica, linear e um tanto fragmentada com acontecimentos desconectados de outros contextos e que pareciam ocorrer de modo sucessivo sem considerar a processualidade histórica do passado, do presente e de projeções do futuro, o Brasil foi sendo desenhado como uma “bela e recatada” nação católica miscigenada, com sua aclamada democracia racial. Essa forma racista, misógina, patriarcal e classista de contar a história brasileira certamente não se restringiu àquela escola particular de pessoas, predominantemente brancas e de estratos sociais médios localizada na cidade mais negra fora da África, Salvador/BA. Djamila Ribeiro (2019), nascida em 1980 na cidade de Santos/SP, ao compartilhar algumas experiências narra que “o mundo apresentado na escola era dos brancos, no qual as culturas europeias eram vistas como superiores, o ideal a ser seguido” (24p.).

Trata-se de uma versão da história sob o ponto de vista dos dominantes, que ainda continua colonizando corações e mentes, apesar do já reconhecido falseamento da realidade. Além de diferentes intelectuais como, por exemplo, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, analisarem a história brasileira criticamente e a partir do racismo que a estrutura, foram publicizados recentemente os primeiros resultados do projeto “DNA Brasil”, que investiga o genoma brasileiro, mostrando como o país foi constituído pela violência sexual, os estupros de mulheres negras e indígenas por homens brancos europeus, e pelo extermínio dos homens indígenas (GOMES, 2020). São esses os fundamentos – violências, genocídios, autoritarismos e atrocidades – que têm definido hegemonicamente nossa humanidade, até então?

Uma humanidade desumana e desumanizadora, que tem se ocupado principalmente em manter seus privilégios custe o que custar, se constituindo apartada, quase que completamente, do meio ambiente. Quase, porque mesmo que deseje se separar ou até negar a importância da natureza e de seus mistérios, eles se impõem, como estamos constatando nesse 2020. A pandemia provocada pelo novo coronavírus tem desafiado as ciências, matado milhares de pessoas no mundo todo, acentuado as crises sociais, econômicas e políticas, não existindo ainda previsões concretas de quando vai terminar. Tem escancarado a perversidade desse modelo capitalista cada vez mais excludente e predador, que tem devastado o mundo com sua sanha econômica insaciável, acabado com a natureza e ameaçado o próprio futuro com a aceleração das mudanças climáticas. Esse modo de vida que produziu a pandemia em 2020 e provavelmente produzirá outras tem transformado o mundo em um lugar inóspito para pouquíssimos seres vivos viverem, incluindo nós, humanos.

Segundo Ailton Krenak (2019) essa humanidade que vem sendo forjada desde o processo colonial e vem se reatualizando dentro do sistema capitalista tem cometido diversos erros. Em nome dela, estão sendo tomadas decisões e ações que no final acabam por diferentes caminhos, incluindo os do denominado desenvolvimento sustentável, nos alienando de nós mesmos e da Terra, organismo fundamental para as existências. Que humanidade seria essa? Questiona Krenak (2019):

Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos (14p.).

Uma humanidade que se pretende universal e homogeneíza os modos de vida em um único, o nomeado como “civilizado”. Esse “processo civilizador” que tem negado e suprimido a pluralidade, uma condição existencial, é que tem destruído tudo (KRENAK, 2019). A necessidade de reinventar essa/nossa humanidade tem se tornado urgente, para isso podemos aprender com os/as que têm, ainda, vivido nas margens:

Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar ao século XXI ainda esperneando, reivindicando e desafinando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos. A civilização chamava aquela gente de bárbara e imprimiu uma guerra sem fim contra eles, com o objetivo de transformá-los em civilizados que poderiam integrar o clube da humanidade. Muitas dessas pessoas não são indivíduos, mas “pessoas coletivas”, células que conseguem transmitir através do tempo suas visões sobre o mundo (KRENAK, 2019, 28p).

Desde o período colonial muites têm sobrevivido, vivido e se organizado, resistido a esse Brasil genocida, racista e patriarcal – “Nossos passos vêm de longe”. Em 2020, apesar de tudo ter se tornado pior com a pandemia e com um antipresidente* que encarna cruelmente esse Brasil, as eleições municipais aconteceram e ampliaram os horizontes. Os resultados alargaram a diversidade na  política institucional e a humanidade vai ganhando mais contornos, os das relegadas sub-humanidades, como nomeia Krenak (2019), que vão ocupar alguns espaços de poder e poderão disputar a hegemonia.

Foram eleites indígenas, quilombolas, mulheres brancas, negras, indígenas, pessoas trans, em geral, comprometides com outros mundos possíveis e com a justiça social. Além disso, Eliane Brum (2020) destaca que o campo da esquerda se moveu com o surgimento de uma nova liderança, Guilherme Boulos, que para a surpresa de muites vai disputar o segundo turno da prefeitura de São Paulo. A maior e mais rica cidade do país, que se considera a referência de “civilidade”, colonizando os demais territórios brasileiros e os significando como inferiores, vai ter no segundo turno um líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto disputando com o candidato da direita que agora faz “oposição” ao desgoverno, mas em um passado bastante recente foi um contumaz apoiador do antipresidente (BRUM, 2020).

Também não podemos deixar de mencionar os movimentos que aconteceram na nossa América Latina, com as eleições na Bolívia elegendo a diversidade que constitui nossa humanidade e o retorno do ex-presidente Evo Morales ao país. A luta do povo chileno por uma nova constituição, conquistando outro marco social que rejeita o projeto neoliberal nefasto implantado na ditadura de Pinochet, uma das mais violentas. A derrota do “Pato Donald” nos Estados Unidos também merece ser celebrada.

Assim, essa reta final de 2020 tem trazido também novos ventos que, de algum maneira, estão soprando esperanças que anunciam outros tempos. Alguns e algumas podem achar que é ingenuidade e/ou idealização, ou que é muito cedo para algum tipo de celebração. Pode até ser mesmo, mas, talvez, concordemos que o mundo dá voltas, que a luta é constante e que os sonhos, as ideias e os inconformismos das contradições que têm movido a humanidade...

Tempo de nos aquilombar

Conceição Evaristo

É tempo de caminhar em fingido silêncio, e buscar o momento certo do grito, aparentar fechar um olho evitando o cisco e abrir escancaradamente o outro. É tempo de fazer os ouvidos moucos para os vazios lero-leros, e cuidar dos passos assuntando as vias ir se vigiando atento, que o buraco é fundo. É tempo de ninguém se soltar de ninguém, mas olhar fundo na palma aberta a alma de quem lhe oferece o gesto. O laçar de mãos não pode ser algema e sim acertada tática, necessário esquema. É tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos, e que venham os dias futuros, salve 2020, a mística quilombola persiste afirmando: “a liberdade é uma luta constante”.

Referências:

BRUM, Eliane. “Me beija e me chama de centro”, diz direita brasileira. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-11-17/me-beija-e-me-chamade-centro-diz-direitabrasileira.html?fbclid=IwAR1jAyHdwbm_YChEdAzPfg77nWnNu1O0UCZ-_g7byvHixfQCsy2hZfXdEs Acesso em: 18 nov 2020.

GOMES, Karol. Brasil é nação construída em estupro de mulheres negras e indigenas por brancos europeus, aponta estudo. 2020. Disponível em: https://www.geledes.org.br/brasil-e-nacao-construida-em-estupro-de-mulheresnegras-e-indigenas-por-brancos-europeus-aponta-estudo/ Acesso em: 05 nov 2020.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

*Termo utilizado pela jornalista Eliane Brum.

**Texto publicado originalmente na seção Debates e Pensamentos do Observatório de Análise Política em Saúde:

http://www.analisepoliticaemsaude.org/oaps/documentos/pensamentos/o-que-tem-nos-definido-paloma-silveira/

 

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