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O PASSADO DE MARINE

O PASSADO DE MARINE

            Quando Marine acordou naquela manhã de domingo tudo parecia estar diferente. Sua cama estava perfumada com um doce aroma de sândalo. Ela estava nua e seu belo corpo feminino na flor de seus de seus vinte e cinco anos de idade estava relaxado e descansado. Bruno não estava ao seu lado. Já havia acordado e levantado. Do quarto do casal, pela janela pela qual entravam os dourados raios de sol daquele verão, Marine podia ouvir os risos das crianças e do pai que brincavam no jardim com o cachorro da família.

             Ela levantou, vestiu o hobby de seda branco que acariciou suavemente sua pele. A jovem e bela mulher recostou-se à janela e contemplou sua bonita família. Um marido fiel e dedicado e duas gêmeas de oito anos. Bruno viu Marine do jardim e acenou com a mão. Não demorou muito para que novamente estivesse ao lado de sua amada e juntos reacendessem a paixão de uma lua de mel que nunca esfriou desde o início do casamento.

                A casa em que se desenrolava a vida idílica da família de Marine ficava afastada do centro comercial da cidade. A majestosa residência fora construída em uma elevação rodeada de frondosas árvores que juntas formavam um pequeno bosque frutífero.

A construção tinha ares europeus e era composta dois andares, rodeada de uma varanda sempre preenchida de cadeiras e redes que possibilitavam uma vista privilegiada do nascer ao por do sol.

Marine, psicóloga de formação, possuía uma clínica na qual atendia pacientes particulares de segunda a sexta-feira. O trabalho lhe proporcionava uma renda satisfatória que lhe permitia usufruir de uma vida sem preocupações. Bruno era engenheiro e tocava uma construtora bem sucedida e com forte tradição no mercado. Marine era rica, feliz e nada em sua vida lhe tirava a fé de que tudo era e permaneceria daquele jeito para sempre.

                “O que faremos hoje?” “Quer dizer, vamos ficar a manhã toda só aqui no quarto?” Perguntava Marine preguiçosamente ao ouvido de Bruno. “Isso não seria bom?” Respondeu Bruno acrescentando: “Mas preciso visitar a obra da quadra seis. Estamos pagando hora extra para que seja possível entregar tudo ainda no fim desse mês.” “Ok, você almoça em casa certo?” “Vou fazer algo especial!” Finalizou Marine recebendo um longo beijo de Bruno.

***

                Eram doze horas quando Marine começou a ligar para Bruno. O refeição prometida já estava pronta para ser servida e as gêmeas já estavam à mesa aguardando pelo pai para começar a almoçar.

            Enquanto marine ligava para Bruno uma das gêmeas chamou à atenção da mãe: “Mamãe há algo vibrando por aqui.” Então deduziram que poderia ser o celular de Bruno. Procuraram o aparelho seguindo o som das vibrações até o encontrarem por baixo das almofadas do sofá da sala.

            Quando Marine apanhou o celular do marido, imediatamente desligou o seu aparelho, mas estranhamente o celular de Bruno não parou de tocar. Havia alguém ligando para Bruno e não era Marine. O número era sigiloso e não havia nenhuma foto que denunciasse quem estava fazendo a ligação. Marine refletiu por um instante e subitamente recomendou que a secretaria alimentasse as gêmeas, pois precisava sair. Pegou a bolsa, as chaves do carro, o celular do marido e foi para a obra... Pela primeira vez incerta sobre tudo.

            Não havia ninguém na construção. Todas as máquinas estavam paradas e um silêncio monótono e assustador pairavam naquele espaço. Marine viu o carro do esposo. Ao lado dele estava estacionado outro carro. No container que servia de escritório era possível perceber que as luzes internas estavam acesas.

                Marine chamou o vigia do local e se apresentou pedindo permissão para adentrar. O vigia observou a aflição da mulher ao mesmo tempo em que direcionava o olhar para o container. “Olha moça, me desculpa, mas seu Bruno me disse pra não deixar ninguém entrar, se eu deixar a senhora entrar eu perco meu emprego, cê entende?” Marine vasculhou a bolsa e retirou todo dinheiro que lá havia. “Dou-te isso que tenho aqui comigo, são setecentos e trinta reais, pega homem, é quase o que você ganha no mês inteiro.” O homem assentiu e acrescentou: “Ok, mas deixa seu carro ai fora mesmo tá?”

            Marine entrou e no caminho sentiu o celular vibrar mais uma vez. Era a chamada sigilosa. O que estava havendo afinal? Por que aquela ligação estava sendo feita se o próprio Bruno já afirmara certa vez que sempre avisava aos clientes, amigos ou funcionários que não atendia ligações no domingo. Dia reservado unicamente à família. A cada passo de Marine as dúvidas se multiplicavam em sua cabeça.

            Ela reduziu a velocidade dos passos quando chegou ao container. Parecia se preparar para o pior e seja lá o fosse ver ali precisava ser pelo menos cautelosa. A porta estava entreaberta. O vento frio do ar condicionado gelou rapidamente o corpo de Marine que há pouco suava e esquentava devido ao sol forte do verão em pleno meio dia.

            Ela adentrou vagarosamente. O container era dividido em duas partes. A primeira era destinada aos clientes, fornecedores e sócios que aguardavam até serem convidados à segunda sala mais reservada. Era um típico ambiente de recepção composto de um confortável sofá, uma mesa com várias revistas, um birô e vários quadros com as obras da construtora.

            Marine notou pequenos detalhes que fizeram seu coração sentir um misto de susto e raiva. Por um momento chegou a sentir dificuldades de respirar. Espalhados pelo container havia peças das roupas de Bruno e outras peças de roupas femininas. O mais estranho, porém foi perceber que as peças femininas eram as mesmas peças de roupa que Marine vestia naquele momento. O vestido vermelho longo de malha e um pequeno casaco de couro preto.

            O telefone de Bruno, na mão direita de Marine, vibrou mais uma vez. Ela direcionou o olhar para o aparelho e para sua surpresa o número sigiloso, agora visível, era igual ao seu número. Contudo seu telefone, em sua mão esquerda, não estava fazendo a tal ligação.

            Seu coração e mente eram agora pura desordem. Nada mais fazia sentido. Ela hesitou em abrir a porta da segunda sala. Respirou fundo e a empurrou vagarosamente. O que viu ali a deixou sem ar nos pulmões. Uma bonita mulher de costas para Marine montava no corpo de Bruno que fechava os olhos mergulhando no êxtase carnal daquele momento.

            Marine ficou imóvel sem acreditar que aquele era seu amado esposo que há pouco se entregava de corpo e alma à comunhão do amor matrimonial. Em sua paralisação momentânea Marine viu a moça girar o corpo lentamente em sua direção. Na mão esquerda da mulher um celular igual ao de Marine ligava ininterruptamente para Bruno. Ao ver que era o celular que estivera ligando toda a manhã para Bruno, Marine levantou o olhar para o rosto da mulher que agora a observava fria e imóvel.

            Marine viu que o rosto da adúltera era igual ao seu próprio rosto. Aquilo a deixou aterrorizada. A mulher então falou em tom áspero: “Por que você voltou aqui? Por que achou que o passado seria diferente? Não percebe que ao fazer isso está mentindo para si própria? Você não mudará o passado que já teve, só pode mudar o futuro, pois este ainda não lhe pertence.” A cada palavra que saia da boca mulher um fio de ar saia dos pulmões de Marine enquanto ela repetia mentalmente e insistentemente: “Não foi isso que pedi, não foi isso que pedi...”

                                                                                ***

            O peito de Marine doía. Parecia ter sido bruscamente acordada. Em seus braços várias seringas, ligadas às sondas, introduziam líquidos que levavam comida e remédios ao seu corpo. “Você acordou hein?! Foi difícil trazê-la de volta, mas você voltou. Você precisa largar o cigarro, isso está matando você. Agora descanse, suas filhas estão vindo te ver.” O jovem médico deixou Marine que tentava compreender o que havia acontecido e o que significaria aquele sonho que misturava fantasia e realidade.

            As gêmeas adentraram na UTI. Eram duas bonitas gêmeas de vinte e cinco anos. As duas exerciam a mesma profissão da mãe e diziam espelhar-se nela em muitas coisas menos na vida de casada.

            “Onde está o Bruno?” As gêmeas se entreolharam e com tristeza no olhar responderam à mãe que o pai estava onde sempre estivera nos últimos anos, com outras mulheres. Aguardando o choro de Marine elas se surpreenderam quando ela resoluta perguntou: “Quando saio daqui?” As filhas meio duvidosas disseram-lhe que em uma ou duas semanas provavelmente ela estaria em casa. Então Marine recomendou inúmeras ações e providências para as gêmeas.

            A cada palavra dita por Marine as moças arregalavam os olhos sem acreditar no que estavam ouvindo. Uma nova mulher parecia ter acordado daquele profundo sono que um infarto lhe causara.

            Os cigarros, a depressão, os ciúmes e uma vida inteira mendigando o amor de um homem insensível quase destruíram à jovem mulher cheia de sonhos sobre o casamento. Marine percebeu que antes de sua quase-morte pedira a Deus que tudo voltasse a ser como era no início. Marine, porém descobriu que não conhecia sequer seu passado.

            Sem saber se o que viveu fora apenas um sonho ou uma revelação, a partir daquele momento ela havia descoberto que na verdade nunca houve tempo bom. Tudo era apenas uma ilusão e sua vida atual, sua saúde e sua minguada força espiritual eram suficientes para que ela compreendesse que o passado não era o caminho para onde deveria ir, nem aquilo que deveria ser mudado. O futuro era sua única saída.

            Marine deixou a velha casa, agora invadida pelas plantas, e tudo que um dia ela pensava ter existido. Ela havia de fato revisitado um passado desconhecido, mas foi o futuro que Marine realmente mudou. A jovem, e ainda bela, senhora viveu cada dia de sua nova vida como se fosse o último. A partir daquele sonho ela se deu conta de que se não fosse capaz de amar a si própria não poderia amar a mais ninguém. Ela se amou primeiro e só então se viu forte o suficiente para amar outra pessoa. Marine viveu e amou muito até o fim de sua nova e corajosa vida.

INfluxo
Jorge Pontes
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Escritor freelancer, caçador de seleções literárias das quais colho vitórias e de outras apenas "não foi dessa vez. Professor de língua portuguesa, inglês e artes na cidade de Maracanaú-CE. Morador da terra do sol, Fortaleza bela.

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