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O inesperado adeus

O inesperado adeus

 

No final de semana em que foi decretado lockdown em minha cidade, recebi uma notícia: havia sido aprovada para o processo seletivo de uma grande organização voluntária. Estava feliz e realizada, pois fazer trabalho voluntário sempre foi um dos meus grandes sonhos e no decorrer da pandemia a premissa de que ajudar ao próximo nos faz bem se tornou algo ainda mais relevante e certo.

Devido a situação, todas as atividades dos voluntariados eram feitos de forma online. As responsabilidades da nossa equipe era simples: entrar em contato com potenciais clientes jovens que queriam ter a experiência de um intercâmbio voluntário.

Parece loucura querer vender uma viagem, ou melhor, um intercâmbio, em plena pandemia, não é mesmo?

Pois era exatamente o que eu fazia. E para mim, não era loucura, fazia total sentido.

Essa organização surgiu, justamente em um período pós guerra cheio de incertezas e insegurança por parte da população. Um programa de voluntariado em outro país, daria aos jovens uma experiência única e transformadora. Assim, o tempo foi passando e entre aulas online e trabalho home office eu fazia a minha contribuição como voluntária. Conheci pessoas incríveis, tudo de forma online, tive tantas reuniões durante algumas semanas que me senti como uma mulher de negócios. Isso durou até a última reunião que tivemos com todos da organização. A presidente anunciou em lágrimas que o escritório da nossa organização seria fechado, pois não conseguimos atingir a meta de intercâmbios proposta durante aquele semestre.

Foi um choque. Eu sabia que a situação no comitê da nossa cidade não estava muito boa, a administração anterior teve alguns problemas e em plena pandemia tivemos que reajustar várias coisas. Mas os esforços de todos nas últimas semanas foi tão intenso que eu pensei que tínhamos conseguido. Bem, não tínhamos, iriamos fechar as portas. Na semana seguinte, eu e minha amiga que fiz na organização, buscamos vagas em outros estados em que a organização se encontrava. Foram reuniões atrás de reuniões, repassando os prós e contras de continuar em uma organização voluntária em outro estado, de forma online.

Até que um dia, em uma terça-feira de julho, o tempo parou. Recebi uma notícia que me fez repensar em tudo que aconteceu até aquele momento e no futuro. A mãe de uma das minhas melhores amigas de infância, havia falecido de Covid. Chorei com soluços tão profundos que me fizeram faltar ar. Era difícil de acreditar e de imaginar que uma amiga tão próxima, havia perdido alguém tão preciosa. Naquela mesma semana, decidi tirar um tempo para mim mesma, fiquei distante de tudo e de todos. E ao final, percebi que eu não seria capaz. Eu não seria capaz de vender intercâmbios para jovens novamente, pois eu não sabia do futuro, enviar alguém em outro país para fazer trabalhos voluntários parecia no mínimo egoísmo da minha parte. Eu não conseguia mais comprar essa ideia que antes havia sido proposta para mim de maneira tão sutil e calculada. Alguns meses depois do fato ocorrido, eu entrei em uma outra organização voluntária, dessa vez uma liga acadêmica universitária. Conheci mais pessoas e comecei a ter certeza de outras coisas.

E foi assim, que 2020 me mostrou que independente de quem eu seja e onde estou, sou capaz de ajudar quem precisa. Valorizar e ter gratidão com as pessoas que estão ao nosso lado é essencial, pois nunca sabemos quando será o último adeus. 

INfluxo
Tamires Castro
Tamires Castro Seguir

Estudante de Administração, apaixonada por filmes, livros e conhecer gente nova

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