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O futuro?

O futuro?

Diariamente, às dezenove horas, as sirenes anunciavam o início do toque de recolher. À população, não havia opção: todos tinham uma hora para retornar ao lar, aquartelando-se. Após as vinte horas, qualquer movimentação seria passível de abordagem, revista e, possivelmente, de encarceramento. Volta às áreas externas só era permitido às oito da manhã.

Os trabalhadores foram obrigados a encontrar serviço nas proximidades de suas casas, ou em bairros adjacentes. Em hipótese alguma, era permitido atraso e demora no regresso ao domicílio. As aulas presenciais noturnas deixaram de existir. Inúmeras profissões desapareceram. Assim como caminhadas, divertimentos, bares, academias, brincadeiras nas praças, namoros e encontros românticos à luminosidade lunar. Ainda que sob vigilância pesada, até as oito badaladas noturnas, tudo bem (na verdade, nada bem). Depois disso, a noite estava sempre destinada ao recolhimento: ônibus não trafegavam; veículos menores, tampouco. Restaurantes, supermercados, shoppings – nada funcionava! As alas de emergência dos hospitais recebiam apenas pacientes em estado gravíssimo e, mesmo assim, mediante contato com a perícia. Se alguém passasse mal, deveria informar imediatamente à “Central de Controle Movimentacional” – era este o termo exato do setor responsável, dentro do Departamento de Vigilância Municipal. Os supervisores, inflexíveis, analisavam o pedido através da câmera de inspeção instalada no computador, para autorizar a saída à rua.

A internet tornara-se a única ferramenta de comunicação. A vida ficara “remota”. Os cabos não mais existiam – “o mundo wireless será uma maravilha!”, diziam os homens do passado. A tudo e a todos, a “Tecnologia G” dominara. Microchips com localizadores foram implantados na população. Qualquer coisa que fizéssemos era acompanhada, e gerava relatório aos controladores.

As ações nas redes sociais, nas plataformas, nos canais de conteúdo, eram incessantemente monitoradas. Se algum deslize fosse identificado, o infrator seria conduzido aos “Espaços Interrogacionais”. O medo era imenso, uma vez que a fama dos interrogadores era terrível.

Com os cidadãos em casa, “aprisionados”, aulas e encontros passaram a ser virtuais. E era comum, no meio de um chat, por exemplo, um vigilante invadi-lo, procurando saber o motivo da reunião e pedindo identificação aos participantes. Palavras e/ou determinadas frases não podiam ser ditas – se fossem, eram capturadas e o alerta, nas centrais de controle, apitava.

Pensar que tudo começou por vontade da população... A maioria julgou que o totalitarismo, o cerceamento das liberdades individuais e o classismo seriam fundamentais para a segurança e o desenvolvimento pátrio. Foram enganados – pobres coitados! Avaliaram erroneamente o discurso eleitoreiro. Entretanto, grande parte, daqueles que foram ludibriados, percebeu o equívoco pouco depois. Cerca de vinte por cento, porém, mesmo presenciando o terror, seguia defendendo arbitrariedades indefensáveis.

O país se acinzentara – os descaminhos, nebulosos, pairavam. Nem a terrível e letal crise pandêmica do coronavírus, anos antes, fora o suficiente para que muitas pessoas aprendessem. Todos tivemos a chance de entender o quão importante era o convívio. E, antes dele, o respeito. Estava estampado, escancarado, plenamente revelado que, para que a crise fosse superada, esforços individuais seriam necessários. A clausura e os cuidados com a assepsia foram anunciados como as únicas medidas reais para contenção do vírus. Mesmo assim, grande parcela da população descredenciou as recomendações, negou o inegável. O resultado foi o pior possível.

Tempos depois, aqueles mesmos que desobedeceram ao óbvio e sobreviveram – hoje, idosos – seguem negando sua parcela de culpa no caos. Manipulados, seus descendentes acreditam nas piores mentiras, que outrora minaram as melhores recomendações sociais e científicas.

Tudo parecia sem solução. Até que, assustado, acordei. Atravessado na cama, com lençol revirado e cobertor ao chão, ofegava. Suava. Que pesadelo terrível! Senti que misturara relatos europeus sobre a Segunda Guerra Mundial e aparatos tecnológicos contemporâneos. Os sonhos que ativaram meu subconsciente levaram-me à mais melancólica distopia.

Aliviado, levantei-me. Certifiquei-me de que ainda estamos em dezembro de dois mil e vinte. Comi frutas e preparei o café, sonhando com dias melhores e torcendo para que todos ainda adquiram o mínimo necessário de consciência, quanto ao seu papel, diante da mais terrível ameaça do século XXI.

INfluxo
Cláudio Costa Val
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Alguém em movimento, que acredita na cultura, antes de tudo. Com arte, educação e união dos povos.

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