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O Diário

O Diário
Amanda Kraft
out. 18 - 3 min de leitura
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Quando minha irmã mais velha estava com os seus dezesseis anos, ganhou um diário. Em princípio achei que fora um presente tolo. Quem em sã consciência iria escrever segredinhos e outras coisinhas mais em um caderno? Entretanto, aquela capa dura, cheia de cores femininas, começou a tomar forma em minha mente de menina, sempre que me distanciava do tal objeto.

Logo que ela retornava das aulas noturnas, trancava-se no quarto e se atirava na cama, pondo-se a escrever naquelas pequenas páginas coisas que só ela sabia. Esse ato aguçava meu instinto. O que tanto ela tinha para segredar a ele?

Esperava, ansiosa, que ela deixasse a casa apenas para eu manusear o tal caderno nas mãos e me frustrar com o minúsculo cadeado que continha suas confidências. O impeditivo que causava curiosidade, distanciando a verdade confessa naquelas páginas, era o motivador das estórias inventadas por mim para poder saná-la.

Esse jogo de deduções durou algum tempo, até que ela esqueceu o pequenino cadeado, não tão seguro quanto ela pensava, aberto. Você deve estar pensando: Será que a irmã bisbilhoteira leu? Sim. Confesso! Mas não contei a ela e nem a ninguém sobre o conteúdo. Porém, denunciada por algo que até hoje não sei, ela descobriu meu delito e o pequeno diário ficou esquecido, aprisionado no canto do quarto até ser jogado fora.

Você deve estar pensado: “Mas o que isso tem a ver com a forma “como a literatura mudou minha vida””? Creio que tudo. Aquele diário, que tanto chamou minha atenção, tomou-me de curiosidade e a necessidade de mergulhar naquelas páginas e em outras, fez-se uma constante em minha vida. A partir desse fato, passei a “devorar” livros e a me “jogar” em mundos fantásticos, sentindo-me cada vez mais ansiosa e apaixonada por tantos mistérios escondidos nas palavras escritas. Esse gosto pela leitura resultou na minha biblioteca particular que, com muito orgulho, digo que há mais de mil e quinhentos livros em suas estantes.  Ler sempre foi uma das minhas grandes paixões, até perceber que eu também podia criar minhas estórias.

A verdade é que cada livro que lemos ou escrevemos não deixa de ser o diário de alguém. Creio que é nisso que está a beleza da escrita. Nem sempre são “causos”, contos ou romances sobre algo que aconteceu de verdade, mas sim, algo que poderia muito bem acontecer e que é passado adiante, sem as amarras de um minúsculo cadeado a tolher pensamentos, sonhos e fantasias. Precisamos acreditar que, através de um “fazedor de estórias”, estamos aprendendo, ensinando e passando adiante entretenimento, conhecimento, a cultura de um povo, romance, risos e choros que chegam a um coração aventureiro.

Minha professora de literatura vivia dizendo que quem não LÊ mal sabe, pouco fala e nada vê. Como a senhora estava certa, Dona Catarina! Desejo a todos que estão lendo essas humildes considerações, que compartilhem cada vez mais e mais leituras e pequenos escritos que façam a diferença na vida dos leitores.

Aproveito e peço que pensem: O que você contaria ao seu "diário" que fizesse alguém sentir a necessidade de abrir um minúsculo cadeado?

 

 




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