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No 8 de março não nos deem flores, estejam ao nosso lado nas lutas!

No 8 de março não nos deem flores, estejam ao nosso lado nas lutas!
Paloma Silveira
mar. 6 - 9 min de leitura
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No 8 de março, não nos deem flores, estejam ao nosso lado nas lutas!

 

Paloma Silveira[1],[2]

 

 

Na data 8 de março é comemorado o Dia Internacional das Mulheres. Reconhecida na década de 1970 pela Organização das Nações Unidas (ONU), a escolha da data possui diferentes versões históricas, mas com um consenso: 8 de março é um dia de lutas por um mundo mais justo e igualitário. Rememorar isso é sempre imprescindível, já que vivemos no sistema capitalista, em que quase tudo é transformado em mercadoria, e na época das redes sociais, que vorazmente se apropriam de conteúdos e práticas, deturpando e/ou esvaziando os seus sentidos políticos.

A propaganda com Michelle Bolsonaro, do Partido Liberal (PL)[3], no dia da conquista do voto feminino, 24/02, é bastante ilustrativa. Vestida com uma camisa que tem uma imagem da bandeira brasileira com a frase “ore pelo Brasil”, Michelle aparece sorridente em destaque, tendo como imagem de fundo duas fotografias: a primeira de uma manifestação ocorrida em 1968, com diversas atrizes protestando contra a ditadura militar, e a segunda de uma mulher votando no ano de 1955[4]. Apropriações e deturpações oportunistas é o que percebemos, mas isso não ocorre sem nenhum propósito a ex-primeira-dama está pavimentando seus caminhos políticos com seu “Deus” que é completamente oposto aos direitos de meninas e mulheres conquistados arduamente.

Diferentes ações foram realizadas no ex-governo de seu marido – aquele que tem uma “mania” de repetir a expressão “pintou um clima”[5] – como, por exemplo, a portaria no 2.561/2020, que dificultava ainda mais o acesso ao aborto legal. Propostas relacionadas à violência contra as mulheres, que além de serem fragmentadas, também não foram executadas pela ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, sua amiga que veste rosa e não azul[6].  

O fato de sermos reconhecidas socialmente como mulheres não nos implica, automaticamente, nas lutas por uma sociedade mais justa e igualitária. Isso ficou mais do que evidenciado nesses últimos anos. Além das Michelles, Damares, temos profissionais de saúde e do judiciário, dentre outros segmentos, que tentam convencer meninas e mulheres estupradas a não abortarem, que divulgam dados sigilosos de mulheres famosas sobre situações de violência sexual, que justificam as diferentes violências cometidas por parceiros íntimos etc. Difícil tornar-se mulher dentro de um sistema misógino e não o reproduzir. Alienadas de nós mesmas e da nossa diversidade, muitas vezes nem sabemos que se eu estou aqui escrevendo, assinando um texto com o meu nome, e você está aí lendo, isso decorreu do processo de luta histórica em que milhares de mulheres estiveram/estão engajadas.

Os valores sociais patriarcais, misóginos e machistas, acrescidos do racismo, classismo, etarismo, dentre outros sistemas opressores, ainda são os dominantes em nossa sociedade. A quarta pesquisa “Visível e Invisível – a Vitimização de Mulheres no Brasil”[7], realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Datafolha, divulgou números assustadores. No ano de 2022, 28,9% (18,6 milhões) de mulheres foram vítimas de algum tipo de violência, o que representa que 35 mulheres sofreram agressões físicas ou verbais por minuto no Brasil. Houve um aumento expressivo de casos, 4,5% em relação ao ano de 2021, e das situações mais graves de violência, incluindo o feminicídio. As mulheres negras, jovens e com baixa escolaridade foram as principais vítimas.

Os/as pesquisadores/as analisam que a situação é complexa e que diferentes motivos podem explicar esse aumento, mas destacam três: o baixo financiamento das políticas públicas voltadas para a problemática no último governo; a pandemia da COVID-19, que dificultou o funcionamento dos serviços que compõem a rede de enfrentamento a violência contra as mulheres, e o aumento/fortalecimento, nos últimos anos, de movimentos políticos ultraconservadores que são contrários às discussões de gênero.

 Segundo o relatório da Transgender Europe (TGEU), publicado em 2022, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Mesmo com a invisibilidade e as subnotificações, os números são estarrecedores: “o relatório mostra que o Brasil teve 125 mortes. Por outro lado, só no ano de 2020, Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) reportou 175 transfeminicídios e mapeou 80 mortes no primeiro semestre de 2021[8]. Ainda neste período, a Antra registrou 9 suicídios, 33 tentativas de assassinato e 27 violações de direitos humanos. São as mulheres trans ou pessoas transfeminadas as que foram mais assassinadas, sendo a maior parte negra, migrante, jovem e profissional do sexo.  

Dados divulgados recentemente pela ONU também apresentam outra realidade bem difícil, a de que uma mulher morre a cada dois minutos, no mundo, por causa de complicações relacionadas à gravidez ou ao parto. Situação que é pior nos países mais pobres ou que estão em zonas de conflitos[9]. O Brasil possui uma alta taxa de mortalidade materna, em 2018 foi de 59,1, quando a meta fixada pela ONU foi de 35 até 2015. As mulheres negras também são as que mais morrem[10]. Na pandemia, o país ocupou por um tempo o primeiro lugar de mortes maternas relacionadas à COVID-19[11]. A maior parte dos casos de mortes maternas são evitáveis e quando refletimos sobre as mortes por feminicídio e transfeminícidio consideramos que todas são evitáveis, o que falta mesmo é compromisso e vontade política para o real enfrentamento dessas problemáticas. 

É verdade que ganhamos um fôlego com a eleição de Lula em 2022, que logo nos primeiros meses revogou portarias contrárias aos direitos de meninas e mulheres e retirou o Brasil do Consenso de Genebra, espaço composto por países ultraconservadores que objetivam impor retrocessos aos direitos sexuais e direitos reprodutivos, e ao conceito de família. No entanto, sabemos que os caminhos são árduos e tortuosos, entre fluxos de idas e vindas, com diferentes tipos de negociações e de responsabilidades, que incluem o Estado, suas políticas públicas, e a sociedade civil.

Em uma breve pesquisa informal com profissionais que ocupam cargos de liderança em empresas, perguntei se achavam importante ações voltadas para o Dia Internacional das Mulheres. Houve uma unanimidade entre as mulheres e os homens, em geral, cis, brancas/os e heterossexuais, de que sim, mas no momento em que foram perguntados sobre os tipos de ações, muitas/os não souberam responder e outras/os trouxeram a ideia de dar bonificações ou algum presente. Dar apenas presentes, flores e/ou parabenizar as mulheres são ações que favorecem mais o esvaziamento do sentido político do nosso dia e não nos provocam a refletir sobre a importância dele, e de seu objetivo principal de luta por um mundo mais justo e igualitário. É urgente pensarmos/praticarmos outras estratégias, engajando os diversos setores da sociedade civil para resgatar esse objetivo. 

Assim, neste 8 de março de 2023, convido vocês a pensarem junto comigo nessas outras ações, que podem ser desenvolvidas ao longo do ano, de variadas formas e em diferentes lugares: familiares, entre amigas/os/es, profissionais etc. O que não pode variar é esse compromisso de resgaste histórico do 8 de março. Para isso, as ações devem trazer as pautas de lutas dos movimentos de mulheres e feministas como, por exemplo, a violência contra as meninas e mulheres, a descriminalização e legalização do aborto, a diversidade sexual, dentre outras. A construção desses espaços em um momento bastante nebuloso como o atual pode ser uma utopia, pode, mas são elas que nos movem e movem o mundo. Um mundo melhor para as meninas e mulheres, cis e trans, é um mundo melhor para todas as pessoas.   



[1] Mulher cis, heterossexual, reconhecida socialmente como branca, professora, psicóloga e às vezes artista. Mestra em Psicologia pela UFPE e Doutora em Saúde Coletiva pelo ISC/UFBA.

[2] Agradecimentos especiais às pessoas que participaram voluntariamente da breve pesquisa informal e a Aninha, pela leitura atenta e colaborativa.

[3] Ver na página do facebook do partido: https://www.facebook.com/plnacional22  

[4] Ver análise realizada por Lilian Schwarcz em sua página do Instagram.

[7] Acayaba, Cíntia; Honório, Gustavo. 35 mulheres foram agredidas física ou verbalmente por minuto no Brasil em 2022, diz pesquisa. 2023. Disponível em:  https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/03/02/35-mulheres-foram-agredidas-fisica-ou-verbalmente-por-minuto-no-brasil-em-2022-diz-pesquisa.ghtml

[8] Pinheiro, Ester. Há 13 anos no topo da lista, Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo. 2022. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/01/23/ha-13-anos-no-topo-da-lista-brasil-continua-sendo-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-no-mundo

[10] Fernandes, Marcella. Números oficiais sobre grávidas com covid-19 estão longe da realidade, dizem pesquisadores. 2020. Disponível em: https://rehuna.org.br/2020/06/24/numeros-oficiais-sobre-gravidas-com-covid-19-estao-longe-da-realidade-dizem-pesquisadores/



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