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MEU CORPO ERA UM AVIÃO E VOAVA PELO CÉU, OLHANDO PARA O PORTO, A CIDADE E O MAR.

MEU CORPO ERA UM AVIÃO E VOAVA PELO CÉU, OLHANDO PARA O PORTO, A CIDADE E O MAR.

Ei, tive aquele sonho novamente. Tu lembra que uma vez lhe falei que sonhei sobrevoando uma cidade? Eu voava bem no meio e com meu próprio corpo. De um lado estavam os prédios e do outro o mar. Era uma cidade que tinha um porto e bem iluminada. O sol batia nela e resplandecia. Para mim era uma espécie de clarividência. Como se em algum momento o percurso de minha vida me levaria aquele lugar. Quando acordei tive a certeza de que era a cidade de Santos em São Paulo, não sei o porquê. No sonho não ouvi dizendo isso, mas tinha certeza. Tinham muitos prédios na beira mar e um porto. De ontem pra hoje eu sonhei novamente. Mas não era em Santos e sim Cuba. As pessoas falavam espanhol, mas para mim era o mesmo lugar. No primeiro sonho eu sobrevoava meio que numa visão de pássaro. Nesse agora eu ia andando pela rua, do ponto de vista humano mesmo, e tinha um muro que não me permitia ver mais nada. Quando cheguei no final desse muro, ao olhar, já era mar, e a cidade já estava lá, depois do mar. Eu estava em cima, não sei dizer direito. Eu sentava e me vinha uma atendente falando espanhol. Você também estava, só que dentro de um estabelecimento. Isso tudo é muito doido porque tenho a impressão de que é a mesma cidade do primeiro sonho. Daí eu fiquei pensando sobre várias questões relacionadas a minha trajetória familiar em relação ao mar. O fato de meus bisavós terem sido pescadores e de meus avós terem vindo para cidade do recife trabalhar com o mar. Meu avô como estivador no porto do Recife e minha avó catando marisco. Sinto um anúncio dizendo que vou para esta cidade em algum momento de minha vida, tenho medo! Fico relembrando de coisas que nem sei se tem relação, tipo da minha infância, sabe? Meu primeiro sonho de infância, mas não sonho de sonhar e sim de “o que você quer ser da vida?”, era ser nadador. Gostava muito de piscina e praia, mas não tinha como fazer natação. Depois quis ser jogador de futebol, assim como quase todas as crianças da periferia. Depois meu sonho foi ser salva-vidas, até cheguei a salvar uma criança em Olinda e esse episódio me marcou muito. Estávamos todos dentro do mar e próximo de nós tinha uma criança e uma mulher adulta. Então eu saí e fui para o calçadão. Logo percebi que a menina estava se afogando e por todos estarem na água, não conseguiam ver. Então saí correndo, peguei-a pelo braço e tentei joga-lá para que um outro menino a pegasse. Depois fiquei com dificuldades para sair porque era mar aberto, fiquei bem cansado. Eu sentia que na água, seja do mar ou do rio, eu era mais forte que os outros meninos, fora não. Eu sempre era o mais fraco, magrinho, franzino, já os outros meninos eram mais másculos, fortes e com uma vivência de rua. Parecia que na água eu tinha uma força maior. Percebi também que aquela sensação que tive no sonho só tinha me ocorrido uma única vez na vida, foi a maior sensação de liberdade que já tive até hoje. Era quando eu pulava da Ponte do Limoeiro lá em Santo Amaro. A única possibilidade de você conseguir entender o que é o espaço-tempo é se jogando de uma ponte para cair na água. Todo o tempo eu sentia, desde o momento que me jogava até o contato com a superfície líquida. Apesar de ser tudo muito rápido, durava uma eternidade. Já o espaço era um vazio, um abismo. Depois de toda essa experiência eu fico imaginando se terei outra sensação de liberdade como esta, ou se na cidade do meu sonho será o lugar onde viverei a liberdade, que é quase como você voar. Liberdade talvez seja voar, por cima de uma cidade ou de um rio, mas desde que você faça o voo com o próprio corpo. Acho que isso é liberdade.


Música "Porto da Saudade", Alceu Valença: 

https://www.youtube.com/watch?v=nQdxlXlOF2s

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