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Retratos & Roteiros Sociais - Por Cassiano R. M. BovoVOLTAR

Marta

Marta
Cassiano Ricardo Martines Bovo
fev. 19 - 8 min de leitura
010

Um dia desses Marta – que eu não via há mais ou menos dois anos - me mandou uma mensagem dizendo que estava em São Paulo e perguntou se estava tudo bem. Eu disse que sim e indaguei como ela estava. A contrapartida me preocupou, pois Marta disse que estava muito mal e que precisava conversar com alguém. Nas suas costumeiras andanças de cidade em cidade (quando não está na casa de sua mãe em outro Estado), como costuma fazer, veio para cá com o primordial objetivo de resolver algo relacionado à sua tristeza, pois logo estaria embarcando para Curitiba.

Combinei de passar no flat onde ela estava hospedada para conversarmos, mas, antes, creio ser relevante dizer que Marta é uma mulher transexual de 22 anos de idade e que passou pelo ciclo que a maioria daquelas que se prostituem passa; morou em várias casas de cafetina, correu, e corre, os mais variados riscos e violências costumeiramente sofridas e foi angariando o aqué (dinheiro) na batalha das ruas, madrugadas adentro, e investindo boa parte em sucessivas transformações corporais, por meio de aplicações de silicone nas nádegas e coxas, colocação de próteses - peitos - e procedimentos estéticos no rosto, acompanhados da usual hormonização, na engrenagem em que os ganhos advindos dos programas realizados vão sendo reinvestidos sucessivamente.  

Marta, dessa forma, se moldou a ponto de, neste momento, ter um corpo escultural a partir dos padrões de muitos dos homens que sentem atração por trans, geralmente demandando programas. A incessante quantidade de mensagens e telefonemas que ela cotidianamente recebe atesta isso. Seios fartos, nádegas enormes, grossas coxas, rosto bem feito, num arranjo que ficou muito bem distribuído nos seus 1,77 de altura e a faz conhecida nos sites e no meio da prostituição.   

Isso posto, podemos dizer que Marta está num caminho condizente com as expectativas e desejos da maioria das mulheres transexuais, sobretudo aquelas que enveredam pelo caminho da prostituição, nem sempre fruto de uma vontade, mas de necessidade de sobrevivência. Num primeiro olhar diríamos que Marta está se dando bem, inclusive financeiramente. Mas ela assim não está se sentindo.

Quanto à minha visita a Marta, fui ao flat, no centro da cidade de São Paulo, conforme combinado; nas proximidades, enviei uma mensagem dizendo que já estava na região. Ela pediu para eu esperar um pouco, pois estava num programa com um gringo. Dei umas voltas pelo centro e ela me disse que eu poderia ir, pois já estava livre. Fui para lá. Para quem conhece a cidade de São Paulo, o flat fica entre a Estação da Luz e o início da Av. Ipiranga, nas beiradas da chamada Cracolândia, em território que é historicamente conhecido como “Boca do Lixo”. Entrando na pequena e estreita rua do local - uma travessa da Av. Casper Líbero - observa-se algo típico dos centros das grandes cidades do país. Em meio ao comércio e prédios em diferentes níveis de degradação, se depara com a entrada daquele onde nossa personagem está hospedada; uma pequena guarita de vidro bem protegida, ao lado uma sequência de grades, pouco chamando a atenção e escondendo o nível do que lá dentro temos. Depois de mostrar os documentos e fazer o cadastro, passei por dois portões, em incessante vai e vem de pessoas, e fui para o elevador, do tipo bem moderno, e subi.  

Ao tocar a campainha, Marta atendeu, nos cumprimentamos de forma bastante afetiva, por causa do tempo que não nos víamos. O flat, muito bem arrumado e limpo, material de primeira, cores claras, bastante espaçoso, confortável e agradável. E ela, angustiada.

Falamos de algumas amenidades e em seguida ela entrou no assunto que a aturdia. Me disse que veio para São Paulo para uma consulta com um médico cirurgião conceituado e ele lhe falou que não poderia retirar boa parte do silicone que está injetado nas suas nádegas, como pretende; isto é, reduzir o tamanho de sua bunda. Na verdade, ele não disse um “não” taxativo, mas o fez indiretamente, pois cobrou um valor de 60 mil reais para uma primeira cirurgia, e o mesmo valor caso seja necessário realizar mais uma ou duas novas intervenções (algo muito provável, segundo ele); além disso, alertou para a complexidade da empreitada, sobre os riscos, as sequelas e insucessos (por exemplo, sua “bunda poderia ficar caída”). Outro problema é que não sendo possível retirar o silicone das coxas, isso geraria algum nível de desproporção corporal. Diante disso, Marta, entendeu como impossível realizar seu desejo.

Marta disse que não quer ter nádegas tão volumosas e acha nela mesma tudo muito exagerado. Pelo que conheço de Marta, ela sempre teve dificuldades em lidar com o seu corpo, revelando uma dubiedade que concilia satisfação com certa repulsa, incômodo, mas nunca imaginei que chegasse ao ponto de tomar essa decisão, o que me levou a perguntar se é isso mesmo que quer e como chegou a tal ponto.

Sim, Marta quer tirar parte do que dá a forma e o volume que fazem homens delirarem de desejo e lhe dá bom retorno financeiro. Ela disse não se sentir bem da forma como é (muito) olhada, desejada, o tempo todo. Reconheçamos que, ao menos no Brasil, as mulheres trans, em geral, chamam a atenção em vários ambientes onde estão e cada uma encontra uma forma de trabalhar subjetivamente a questão. Mas, no caso de Marta, ultrapassou algum limiar. Outra coisa, ela me revelou que quer cursar odontologia e imagina que isso lhe trará dificuldades, o que entendo, também, como um desejo de ser reconhecida de outra maneira que não o mercantil-sexual.  

Até para desanuviar um pouco, Marta, que dificilmente sai à rua, pediu para eu acompanhá-la para fazer um depósito no banco e ir ao mercado. Descemos e, na rua, acintosos olhares. Uma mulher em situação de rua parou à nossa frente e perguntou para Marta se ela é modelo, ela disse que sim, a mulher disse: “Nossa que mulherão!” No banco, os olhares de volúpia. No mercado, idem; um homem até veio puxar papo comigo. Entramos na loja de produtos de beleza, ao lado, e uma mulher veio falar com Marta, afirmando: “Como pode uma mulher ser assim? Olha que corpo!” Marta começou a conversar com ela e até a convidou para visitá-la. 

De volta ao flat Marta disse que não aguenta mais a prostituição. Ao mesmo tempo que conversávamos ela ia olhando as muitas mensagens em sequência. O celular tocou, ela atendeu, e respondeu impacientemente sobre o programa, local e preço, sem muita preocupação sobre o desenlace, meio que desdenhando do homem que ligou, revelando pouco caso. Em seguida, continuou a olhar as tantas mensagens, digitando respostas. Logo depois, disse-me que um cliente combinou um programa e estava a caminho. 

Me despedi de Marta, desejei boa viagem e que conseguisse dar a melhor solução para o seu dilema. Já na rua, mergulhei nos pensamentos sobre o que Marta me disse, também sobre os corpos forjados na perspectiva da prostituição, as armadilhas da transformação corporal e a impermanência da condição humana. Mas voltei para o “aqui e agora” ao me deparar com uma mulher transexual em situação de rua e, pouco adiante, com outra, ambas ziguezagueando, largadas e meio que perdidas em seus deploráveis trajes, como zumbis à procura de algo.... 

 

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