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Lições Políticas Aprendidas com o Coronavírus (parte 1)

Lições Políticas Aprendidas com o Coronavírus (parte 1)
Dennis De Oliveira Santos
abr. 23 - 5 min de leitura
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Esperando nervosamente uma redenção do capital, a mão invisível com seus febris músculos, agora é obrigada, de forma tensa, a lavar cuidadosamente seus dedos com sabão e álcool gel ao perceber que o seu livre mercado contribuiu para o alastramento do coronavírus. O Covid-19 escancara de forma crua toda a irracionalidade e desumanidade do sistema capitalista de produção.


Em pouco tempo esse vírus ceifou centenas de vidas humanas, mudou radicalmente a vida das grandes cidades, gerou medo e impacto nas bolsas de valores em todo o mundo. Tendo em vista que momentos de crise são situações de intenso aprendizado, quais lições a humanidade pode extrair desse quadro apocalíptico gerado pelo vírus em discussão?


1) O mito do desenvolvimento social e econômico sem a interferência do Estado cai por terra mais uma vez. A ideia do mercado funcionando de forma independente das instituições sociais responsáveis pelo bem estar dos sujeitos mostra toda a sua contradição na atual conjuntura. As relações econômicas são apenas algumas das instituições necessárias para o funcionamento da coletividade - existem fatores políticos e sociais que influenciam nas decisões coletivas. Isso faz que a economia de um país seja ditada tanto pelo mercado quanto por fatores não econômicos (demandas sociais, calamidades públicas como o covid-19, etc). Assim como em 1929, quando interviu com políticas públicas no setor econômico para resolver uma recessão e garantir melhoria de vida aos mais afetados, hoje o Tio Sam libera 1,5 trilhão de dólares para socorrer bancos e amenizar o impacto nas suas bolsas. Em 2008, o "livre mercado" recebeu auxílio semelhante do "maléfico Estado". Sendo assim, a política econômica que orientou o desenvolvimento dos países capitalistas é baseada no planejamento estatal, no protecionismo econômico e num Estado empenhado em garantir direitos básicos ao cidadão. Se há dúvidas basta relembrar o protecionismo econômico da Inglaterra no século XIX ou a política de Welfare State que reconstruiu a Europa após a Segunda Guerra Mundial. As necessidades humanas não são supridas pela mentalidade de lucro do livre mercado, mas sim pelas obrigações sociais que o Estado tem perante a sociedade.


2) Calamidades públicas como essa são razões mais que suficientes para fortalecer o serviço público. A Espanha perante a pandemia já pretende nacionalizar hospitais privados para contornar a situação. A China conseguiu diminuir expressivamente o número de infectados nos últimos dias através de um intenso planejamento de saúde em suas cidades. No Brasil, a população descobre que o SUS é sua salvação enquanto rede pública de saúde - ao contrário dos altos valores cobrados para o exame da doença nos Estados Unidos. Apesar desses fatos, infelizmente o mantra de austeridade fiscal é repetido pelo ministro da economia do Brasil, o qual pretende se aproveitar da situação para operacionalizar medidas de privatização de alguns setores governamentais. Como fazer isso com um orçamento público cada vez mais escasso, vilipendiado pela Emenda Constitucional 95 que causou a perda de mais de vinte bilhões de reais para a saúde? É com a precarização dos leitos e hospitais através do congelamento de investimentos que vamos suprir os atendimentos em casos de picos da doença? Revogar a EC 95 e aumentar as verbas para a saúde pública é de total urgência para conter a crise.


3) O vírus também perturba o funcionamento da sociedade capitalista ao nos mostrar que a sociabilidade humana deve ser pautada por elos de solidariedade, pela cooperação global, pela empatia ao invés da vida egoísta, regida pelo lucro, pelas quedas e aumentos das irracionais bolsas de valores. Os brasileiros, por exemplo, que por cegueira ideológica expulsaram médicos cubanos, mas agora precisam dos mesmos mediante seus avanços em combate a doença. Existe a urgente necessidade de reorganizar o sistema mundial da economia e do Estado no sentido de domar o espírito animalesco que coloca o lucro acima de vidas humanas, que não se importa com a dor e a pobreza alheia. É hora dos amantes da vida justa se multiplicarem, cercarem das suas mais diversas armas para no horizonte pós-covid 19 construírem uma sociedade alternativa, livre das enfermidades que nos coloca hoje num precipício social.


18.03.2020



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