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LIBERDADE ILUSÓRIA

LIBERDADE ILUSÓRIA

            Quando ele acordou naquela manhã havia algo diferente. Uma excitação tomava conta de seus pensamentos e de suas atitudes que a partir daquele momento estariam sempre envolvidas em uma incontrolável alegria. Uma bomba em seu peito estava prestes a explodir e sua mente não tinha o menor interesse em barrar esse impulso puramente emocional. Ele soltou um desses gritos que se soltam sempre que algo muito bom acontece como uma promoção no trabalho, um bom dinheiro extra ou ainda um filho que nasce. Foi assim que ele começou seu primeiro dia de solteiro.

            Tomou um longo banho e ficou feliz porque ninguém o censurava sobre a demora e um possível atraso no trabalho. Ninguém o questionou também quando às seis da manhã ele ouvia seu rock’n roll e celebrava a tão sonhada liberdade. Como amou a liberdade naquela manhã!

            No trabalho os amigos e amigas notaram sua mudança, mas ninguém ousava perguntar-lhe, pois poucos sabiam do que se tratava aquela novidade e muitos não tinham com ele qualquer aproximação, fruto do distanciamento tantas vezes advogado e cobrado por ela. Hoje, porém ele experimentava a intimidade.

            Confidenciou, ouviu confidências e em apenas um dia viu seu circulo de amizades aumentar consideravelmente. Quase podia adivinhar o que se cochichava nos corredores quando passava e notava cantos de olhos a lhe observar. “Nossa, como ele é extrovertido”, “Por que não o conhecíamos assim antes?”, “O que o prendia antes de hoje?”. Todas essas suposições e devaneios, embora totalmente improváveis, acariciavam seu ego e alimentavam a certeza da felicidade que ainda estaria por mostrar-se em sua plenitude. Como ele amou a coletividade naquele dia de trabalho!

            No fim do expediente foi convidado pelos novos amigos a acompanhá-los para o happy hour de sexta-feira. Como desejou aceitar esse convite há tempos atrás! Hoje ele diria sim! Então saíram juntos ao bar mais badalado próximo ao trabalho.

            Ele bebeu, cantou, conversou, ouviu desabafos, planos frustrados, sonhos não realizados e promessas que nunca se cumpriram e que nunca se cumpririam. Em dado momento toda essa festa de palavras e pensamentos começou a surpreendê-lo e muito o admirou a capacidade da solidão e da tristeza alheia persistirem em meio a tanta aparente alegria.  Como o assustou a falsidade humana naquela noite!

            Foi para casa sob protestos e promessas de novos encontros. Entrou no carro e se sentiu aliviado por saber que poderia chegar a casa à hora em que bem entendesse.

            Chegou, guardou o carro, adentrou a sala, largou roupas e sapatos em qualquer lugar. Abriu a geladeira, sentou no sofá e ligou a TV que nada de bom oferecia à distração. Jogou o controle ao lado e notou um profundo vazio no peito e teve saudade de toda excitação que o fez gritar pela manhã. O que aconteceu com aquela alegria matutina? Enquanto fazia a si mesmo perguntas sem respostas observava ao seu redor toda desordem que conseguira fazer em apenas um dia. Como detestou a liberdade naquela noite!

            Tomou um banho curto e sentiu falta de outra voz na casa a reclamar da água que caia indefinidamente. Fechou a torneira e ao sair percebeu as mensagens no aplicativo do celular. Fotos da noite mostravam sua nova vida e os companheiros e companheiras da boemia. Todos de copos na mão, muitos risos e alegria. Lembrou-se então de que estivera naquele lugar, naquela mesa com aquelas pessoas. Percebeu que uma foto não era capaz de mostrar nada mais que um sorriso ocasional e que por trás de toda aquela festa havia dramas pessoais, histórias verdadeiras cheias de sonhos, alguns realizados e muitos frustrados. E notou finalmente que horas de alegrias passageiras, palavras ao vento, uma dor de cabeça e uma ressaca aguardada, não ajudavam a mudar muita coisa na dura realidade da vida. Naquele momento ele se decepcionou com a coletividade ao mesmo tempo em que também odiou a falsidade humana.

            Já deitado em sua cama percebeu entre as quatro paredes do quarto que estava só. A solidão que sentia agora era maior que a alegria, a liberdade e a coletividade que preenchera seu dia. Naquela noite ele quebraria sua primeira promessa. A que fizeram a si mesmos antes de se distanciarem. Só assim, ambos em comum acordo, sabiam que seria possível superar os primeiros dias. Dormiu molhando o travesseiro de lágrimas. Ao seu lado a luz do celular iluminando o quarto e o texto da mensagem enviada sem resposta: Saudade...

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Jorge Pontes
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Escritor freelancer, caçador de seleções literárias das quais colho vitórias e de outras apenas "não foi dessa vez. Professor de língua portuguesa, inglês e artes na cidade de Maracanaú-CE. Morador da terra do sol, Fortaleza bela.

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