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Ler Escrever Sentir Viver

Ler Escrever Sentir Viver
Nestor Santos Correia
out. 10 - 5 min de leitura
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                          Ler Escrever Sentir Viver


Gustav Wasa (1496-1560) era o bisavô da Rainha Christina. Foi o fundador do Estado Sueco moderno, reino onde pássaros congelam no ar e caem mortos e andorinhas dormem no fundo dos lagos congelados durante o inverno. Pelo menos é o que diz René Descartes quando inspirou o personagem O Filósofo, da peça “Dissecar uma Nevasca” de Sara Stridsberg. O Descartes real morreu de pneumonia em 1650 em Estocolmo, para onde foi importado por Christina para trazer cultura para esse lado do mundo. Ele tinha a opinião de que até os pensamentos congelam nesse reino frio. O pai de Christina, foi quem fundou a Biblioteca Karolina Rediviva da Universidade de Uppsala e o meu acesso a essa biblioteca, quando estudava Física, foi o que reviveu meu gosto pela literatura, adormecido durante os estudos universitários.


Tinha ajudado Bim de Verdier, atriz e diretora de teatro, minha mulher e mãe de Leo, Maria, Lucas e Julia, nossos filhos, a traduzir do português arcaico para o sueco a peça “Pranto de Maria Parda” de Gil Vicente, escrita em 1522. Conseguimos na Karolina Rediviva uma edição comentada do livro e um dicionário de português medieval. O texto foi escrito em versos de redondilha maior, com métrica e rima fixos, em quadras e quintas na estrutura rítmica ABBA, CCDDC. Bim demorou dois anos trabalhando com o texto, queria manter a estrutura poética do original na versão em sueco. Quando Bim encenou a peça, um monólogo onde ela fazia piruetas no palco para mudar de personagens, um português nosso amigo, tradutor profissional autorizado, disse: “Só agora entendi o que Gil Vicente queria dizer.” Meu trabalho nessa tradução consistiu principalmente em cuidar das crianças e dar palpites errados. O Pranto de Maria Parda, foi o tema do mestrado de Bim em Artes Cênicas na Universidade de Estocolmo. O texto inteiro em português está aqui: Pranto de Maria Parda


Quando ia tomar emprestado esses livros esquisitos na Karolina Rediviva, fiz amizade com os funcionários, que achavam estranho um doutorando em Física buscar livros de literatura em português. Percebi então a riqueza e a qualidade do serviço das bibliotecas dos países nórdicos. Livros eram uma das prendas de guerra preferidas dos antigos reis.


Depois de descoberta a biblioteca e seu fantástico serviço, queria reler “Os Sertões” de Euclides da Cunha, pois tinha lido “A Guerra do Fim do Mundo” de Vargas Llosa (Premio Nobel de Literatura de 2010), onde Euclides é retratado como um jornalista cego. Eu tinha sido forçado a ler “Os Sertões” para o vestibular. Claro que não gostei, só pensava em Física então e achava Literatura um desperdício de tempo. Adorei Os Sertões nessa segunda leitura. Essa redescoberta dos clássicos me levou a querer ler “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que só tinha lido uma sinopse, também na época do vestibular. Quando fui pedir emprestado, não tinha na Karolina. Só numa biblioteca em Copenhagem. Disse ao funcionário: “Então deixa para lá, não é da minha área, é só literatura”. O cara me fuzilou com um olhar de espanto: “Literatura é muito importante, temos o serviço de empréstimo à distancia, pago pelo Estado, quando o livro chegar aviso a você”. Olha que isso era na década de 80 do século passado. Quem ainda não leu Lima Barreto, corre e vai ler, mesmo que seja considerado louco, como Policarpo Quaresma e termine fuzilado. Eu vou reler agora pela terceira vez. Achei aqui Triste Fim de Policarpo Quaresma. Hoje em dia é tão mais fácil!


Agora, aposentado, leio muito mais. Sempre leio alguma obra do Prêmio Nobel do ano. Ainda não li nada de Jon Fosse, mas já li “A Vergonha” de Annie Ernaux, Premio Nobel de 2022. Recentemente descobri Mia Couto, li tudo dele, fantástico. O último livro que li foi “Pedro Páramo” de Juan Rulfo, em castelhano mexicano, com dicionários online para ajudar. Reli Guimarães Rosa, que conheci quando fui aluno do Colégio Arnaldo em BH, onde ele também estudou.


E pasmem: Depois de velho comecei a escrever contos, poesias e até já escrevi um pequeno romance. Antes de aposentar trabalhava como cientista e professor universitário e só escrevia projetos de pesquisa, textos didáticos e artigos científicos, com precisão, fatos, descrição de observações, modelos, teorias, referências. Nada de figuras de linguagem ou coisas inventadas. Escrever literatura é tão mais gostoso, a gente entra em transe, ou em estado de graça, ou “Flow”, um conceito da Psicologia Positiva de Mihaly Csikszentmihalyi. Veja só, foi só falar em referências, pulou uma na minha frente e ainda a uma pessoa com um nome muito esquisito. Perguntei ao google, o nome dele significa Miguel da Vila de São Miguel, em húngaro.




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