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Hi!

Hi!

Fui visitar a quebrada onde eu nasci, e encontrei meu primo Alex

Ele me cumprimentou dizendo: e a mulherada?

Eu, sorridente, respondi: ah..

Ele me interrompeu e falou: oh, mulherada não né (riu)

Eu disse: depende do meu humor no dia, às vezes é homem, às vezes é mulher

E ele: é isso aí, tá certo, cada um é cada um, tem que seguir sua trilha mesmo, num tem isso não, e aqui é família, sangue, a gente tá junto

Ele sorriu, pegou minha cabeça e encostou perto do pescoço dele
Tipo um abraço, só que mais íntimo

Eu mal o conheço, a gente nunca conversou (algo que quero mudar há tempos), mas ele tratou à mim e a minha bissexualidade com todo o carinho que tinha pra dar

Só nesse curto diálogo meu primo derrubou três verdades absolutas da internet:

1 - a de que figuras afeminadas são automaticamente lidas como gays

2 - a de que indígenas - no caso ele - não naturalizam a bissexualidade, pois são seLv4gen$ e a bissexualidade é m0d3Rn4

3 - a de que favelados não captam linguagem direta quando o assunto é gênero e tudo precisa ser explicado em mil palavras
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No dia seguinte esse mesmo primo me perguntou o significado da minha tatuagem, lá do oooutro lado do quintal, num churrasco de família
Eu tive que literalmente gritar BISSEXUALIDADE e quase infartei a minha tia

Bom, pelo menos quem não tinha entendido, agora entendeu
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Minha prima Adriana, de 9 anos, também me perguntou da tatuagem, eu respondi e perguntei: você sabe o que isso significa?
Ela, com o nariz em pé, me falou: significa que você pode gostar de um garoto ou de uma garota.
E eu tipo: hum, é exatamente isso, nossa
Ela completou: EU APRENDY SOZINHA TAH
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Minha tia Fátima passou duas horas tentando me converter
Eu expliquei 3 vezes pra ela que eu jogo nos dois times
Ele se fez de besta - não que já não fosse - e eu segui meu bonde
Minha tia disse que deus é o único terapeuta que existe
Disse que sente uma treva ao meu redor
Me convidou pra ir na igreja tirar essa sombria de mim

Numa coisa ela tá certa: há pouquíssima luz no meu ser
Mas não há nada com que se preocupar
Eu não tenho medo do escuro há muito tempo
Escuridão é astúcia, é silêncio, é recarregamento
A deusa Lua me ensinou que escuridão é tempo de mergulhar em si, me ensinou que a cegueira não é uma maldição, me ensinou que o medo faz parte e temos que deixá-lo fazer parte
Minha tia doou um carro pra Universal, e acha que eu é quem entreguei minha alma pro diabo
Hã, hã!
Não sou eu quem teve o espírito comprado
A tia Fátima olhou pra minha tatuagem e disse: fulano também tinha, mas era só a cruz, sem a parte de cima

Dava pra essa merda ser mais simbólica?
Uma cruz abaixo do rosto de um gato

A igreja católica costumava dizer que as orelhas pontudas dos gatos eram parabólicas sintonizando o rádio do "marvado"
Por isso até hoje gato preto "dá azar"
Porque deus permitiu que jogassem trinta centímetros de altura em formato de felino dentro de fogueiras
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Eu nasci com um ponto de sangue no olho (lado esquerdo)
O médico disse que era normal, não precisava ter medo
Mas por muito tempo eu tentei ver um sinalizador ali, um divisor de águas
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Deixa eu contar a história de Jaia, alma profana adotada por Lilith e Eva

Ela tava numa pousada e tinha o novo testamento lá
Ela já tava vivendo o dilema: será que curto meninos ou meninas?
Se ela curtia meninos, ela devia tá fingindo
Se ela curtia meninas, ela devia tá fantasiando ou só queria ser igual à elas
De toda e qualquer forma, era sempre uma ilusão

Jaia leu o Apocalipse, e se encantou com a fantástica marca da besta
Anos depois, ela desabafou pra sua psicóloga
Costumava achar que tinha o 666 bem abaixo de sua pele, esperando emergir
Achava que alguém ia descobrir e todo o seu mundo ia virar marco histórico, ruína
Olha como as coisas são:
Na cabeça de Jaia, ela não era um demônio aterrador e assassino, mas um que tava predestinado à ser banido, suicidado
Jaia escolheu agarrar sua faceta ofídia, sentir o poder que todo o mal tem à oferecer
Hoje ela acolhe vítimas de bifobia
Pois como eu disse, a escuridão é deusa do subconsciente, mãe da sagrada Psicologia

Demônios não são mártiris, não são vítimas
Demônios são... seres idealistas

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Palavras de Jaia =

Aos 12 anos, eu fui prum clube com uma amiga e a prima dela, Eliane. Eu comecei a me sentir atraída pela Eliane.
Eu me senti muito horrorizada porque eu já me apaixonava por meninos da minha escola, então eu comecei a rezar
Eu sou de família católica, minha família ia me odiar, então eu rezava pra não olhar pra meninas, e eu nunca tive um entendimento absoluto de que eu podia gostar de meninas & meninos

"Eu tenho que gostar de um menino, eu tenho que gostar de um menino!"

Eu pensei na Eliane o ano inteiro, ela virou uma fantasia pra mim, por anos eu pensei ter alucinado o desejo

Naquele verão, eu fui pra um apartamento de praia em Guarapari. Tinha uma grade na janela do apartamento que minha mãe disse que tava pra cair
De madrugada, eu fui até a grade e me deitei nela pra morrer, mas eu era pequena e não surtiu efeito

Quando eu me assumi pras minhas amigas - já adulta - elas disseram: mas tem certeza que não é uma fase da jovialidade? todo mundo tem essa fase

(Já viu "fase" matar criança? Se a bissexualidade é uma fase, por quê a bifobia não é?)

Eu apaguei essa memória, mesmo que o desejo por mulheres estivesse sempre ali
Eu juro que achei que minha sexualidade era errada, desviante
Enquanto psicóloga, eu me sinto muito preparada pra atender pessoas bi
Ainda assim, seja por qual gênero for, até hoje eu penso: "será que eu tô delirando esse desejo? será que eu tô me enganando? enganando à todos?"
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Palavras de outre:

- Desde os cinco anos eu peço beijo pras minhas amigas, uma vez eu passei a xoxota na barriga da minha prima e mordi a teta dela

Crianças são curiosas, alguns diriam que bi-curiosas, mas isso vai do seu ressignificar
Crianças são... demoníacas!

INfluxo
Blinc Haliah
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Bissexual, trans e sobrevivente de mim mesma

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