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GINCANA LITERÁRIA

GINCANA LITERÁRIA
Cláudio Costa Val
set. 25 - 6 min de leitura
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Entre 1845 e 1849, a Irlanda viveu o período hoje conhecido como “A Grande Fome” (em irlandês, “An Gorta Mór”). Tudo por causa do oomiceto Phytophthora infestans. Oomiceto é uma espécie de fungo, que adora impregnar a Solanum tuberosum e o Solanum lycopersicum, nomes científicos dados à batata e ao tomateiro, respectivamente. Esse organismo fúngico, nada bonitinho, simplesmente destrói os tubérculos infectados. Ingerido pelo ser humano, pode causar doenças terríveis, quase sempre fatais. Como os irlandeses dependiam da batata para sobreviver, as estatísticas apontam que cerca de 25% da população local pereceu.

Naqueles tempos, a Irlanda era tão miserável que a batata era a principal fonte alimentícia. Para grande parte da população, era o único alimento. Literalmente, os irlandeses nasciam, cresciam, viviam e morriam comendo exclusivamente batatas.

Uma das alternativas encontradas pelos irlandeses, em meados no séc. XIX, foi a migração para os Estados Unidos da América – que já acontecia desde o séc. XVII, mas em número muito menor. Para se ter uma ideia, a expectativa de vida de um negro escravizado nas terras na América do Norte, em 1840, era de trinta e seis anos. Na Irlanda, no mesmo período, era de dezenove anos. Dá para acreditar?

Assim, as alternativas eram morrer de fome ou buscar outro lugar para viver, independente do risco. Quem conseguia, evadia-se para Escócia e Inglaterra, que rejeitavam veementemente o povo irlandês. Muitos foram para Canadá e Austrália. A maioria, entretanto, acreditava que o futuro estaria nos Estados Unidos. Valia, portanto, arriscar a travessia do Atlântico nos “navios tumbeiros”. Estas embarcações eram assim denominadas porque as condições eram tão insalubres que 30% dos imigrantes morria durante a viagem. Os corpos eram rapidamente jogados ao mar, por medo de infecção a bordo. Que demérito teriam esses desafortunados? Seriam muito velhos? Muito jovens? Mulheres? Teriam doença pregressa? Longe de conhecer as respostas, à distância no tempo, podemos afirmar que se tratava de uma "gincana mortal". 

Todavia, a competição não terminava após a travessia. A maioria dos sobreviventes instalava-se no nordeste dos Estados Unidos, em grandes centros urbanos, como Boston, Filadélfia e Nova York, residindo perto dos portos onde desembarcavam. Ou seja, a miséria continuava, com muitos irlandeses trabalhando em regime de servidão. Como não tinham escolha, talvez pensassem: “aqui, pelo menos, poderemos viver uns dez ou vinte anos a mais”.

Alguns, tendo condições minimamente melhores, tentavam a vida no interior do imenso território estadunidense, ainda com muito espaço disponível, sobretudo após os massacres e/ou a expulsão dos indígenas dos seus territórios nativos.

Havia, inclusive, a “corrida pela terra”. Pequenos terrenos eram demarcados. O “corredor” ou a “corredora” recebia uma bandeira. A largada era dada e, aquele/a que primeiro/a chegasse, fincava a bandeira no solo. A porçãozinha de terra conquistada passava legalmente a ter dono/a e, dentre outras coisas, batatas poderiam ser plantadas. Felizmente, com alguma esperança e possibilidade de subsistência. Jovens corriam pelos seus pais, homens pelas suas esposas, mães pelos seus filhos, irmãos pelas suas irmãs. A gincana seguia definindo os vencedores não apenas pelas condições fisiológicas e capacidade de resistir às enfermidades, mas também pela obstinação e superação quase sobre-humanas.

Há muito vivemos de gincanas. Algumas terríveis. Outras, esportivas. Outras, ainda, intelectuais. Mas sempre almejando algum “lugar ao sol”. 

Pois bem. Nos dias 18 e 19/09, participei de uma gincana, “oferecida” pela Companhia das Letras. Longe de ser fatídica como a saga irlandesa do séc. XIX, senão, apenas, bizarra. A “prova” consistia em entrar no site da editora às 10:00h e submeter um livro inédito, de romance ou de contos, para avaliação futura. Detalhe: apenas duzentos e cinquenta afortunados/as a cada dia. Portanto, quinhentos/as autores/as no cômputo geral. Mais que escritores/as (a bem dizer, o que menos importava neste momento era ser “escritor/a”), o felizardo/a precisava ser especialista no “gatilho”, ter internet com taxa de transmissão ultrarrápida e contar com sorte de megassena (“Mega-sena”, por se tratar de uma marca).

No primeiro dia, as “vagas” se esgotam às 10:06h. Minha decepção é irlandesa (perdoem-me pelo trocadilho), sendo que às 9:30h já estava de prontidão. No segundo dia, atento como um lince, às mesmas 9:30h entro no site, posiciono-me. Respiração sob controle, olhos na bordinha direita no notebook, onde o reloginho digital fincara a sua bandeira desde a saída da fábrica. Dedos a postos, o mouse até treme. 10:00h. Click! Tudo trava! Às 10:01h já não há mais esperança. Por volta de 10:05h, a “corrida” se encerra.

A Companhia das Letras inova: agora, para ser autor publicado, além de bom nas palavras, é preciso ser perfeito na prova do “um minuto raso”. Nem Usain Bolt, caríssimos leitores! Como bem disse um amigo, também escritor, o método/mérito para recebimento de originais passa a ser definido como “gincana literária”.

Como se a realidade do/a escritor/a no Brasil já não bastasse, em todas as suas colossais agruras. Num país onde parte da população se orgulha por não gostar de literatura (“graças a Deus, nunca fui de ler livro”, disse, certa vez, um concorrente do BBB, ao vivo), temos também que ser bons/as “corredores/as”.


* Crônica publicada nos jornais "Santa Tereza Notícias", Coração Eucarístico" e "Pampulha" (setembro/23).


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