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Gavetas

Gavetas

“Estar isolado nos coloca num lugar de silêncio.

Nesse lugar isolado e de silêncio,

podemos dormir, ou podemos acordar.”

Joana Oliveira da Conceição

 

Havia uma parede altíssima com um número incontável de gavetas. Dentro delas viviam pessoas, todas contorcidas, presas na pequenez daqueles cubículos escuros e claustrofóbicos.

Apesar do desconforto imensurável, aquelas pessoas resignavam-se a tal realidade ou porque não sabiam que as gavetas eram gavetas, achavam que eram mundos; ou porque eram pessoas pequenas demais e tinham a impressão de que as gavetinhas eram gavetonas; ou porque achavam que lá fora podia ser pior do que lá dentro; ou por motivos semelhantes, todos derivados de ilusões.

“O fato é que as coisas sempre foram como foram”, pensavam os espremidos. Mudar não fazia sentido para aquelas pessoas, que estavam, acima de tudo, adormecidas.

As gavetas eram idênticas na aparência, no tamanho, na cor e na forma; eram todas fixas e estáticas. As pessoas eram diferentes, mas todas dormiam e, dentro das gavetas, todas tornavam-se iguais.

Assim, a ordem das coisas era mantida, massificando-se a diversidade e suprimindo o que fosse suprimível.

Tudo corria “bem”, muito “bem”, até que um movimento curioso chamou a atenção para a gaveta de número 3. Dentro dela vivia uma menina de cabelos longos e enrolados. Seu nome, há tanto esquecido como o dos outros engavetados, era Clarice.

A jovem Clarice também vivia adormecida. Mas isso até aquele dia, o dia em que uma voz, bem ao longe, chamara seu nome.

Primeiro sussurros; depois a voz feminina, progressivamente, foi ganhando mais nitidez e altura até penetrar fundo nos ouvidos e na consciência de Clarice, fazendo-a despertar e lembrar que não era apenas mais um número: ela era Clarice.

Seus enormes olhos pretos abriram-se, de súbito. Clarice inspirou fundo e novamente ouviu a voz. Olhou pela fresta da gaveta por onde entrava um feixe intenso de luz e espremeu os olhos ao sentir a ardência provocada pela incidência dos raios solares.

A voz persistiu e Clarice, imediatamente, empurrou a gaveta com as duas mãos, sem hesitar. Inclinando o corpo para frente a fim de avistar as imediações do lugar, a jovem despencou por um precipício.

Clarice caiu. Caiu durante longos segundos até sentir o impacto abrupto de seu corpo na água gelada do mar. Atraída pela voz que continuava a chamar, a jovem mergulhou fundo. Mergulhou sem pensar, sem saber se sabia mergulhar, nem tampouco por quanto tempo iria aguentar. Apesar da escuridão, do medo, da falta de ar que já estava quase insuportável, Clarice continuou a seguir a voz que vinha das profundezas. E foi fundo, muito fundo, sem nem saber que estava indo fundo dentro dela mesma.

Quando lá nas profundezas viu um baú agitando-se, como se algo dentro dele se debatesse, Clarice soltou um grito e de dentro da boca da jovem saiu uma chave. A surpresa foi tanta que Clarice passou a respirar normalmente, como se estivesse mesmo respirando oxigênio. Com os olhos esbugalhados pegou a chave, abriu o baú e mal acreditou no que seus olhos viram. Dentro do baú havia uma Clarice de cabelos curtos. Clarice segunda, a das profundezas, sorriu largamente para Clarice primeira, a das gavetas, e lhe estendeu a mão. Então as duas, juntas, começaram a nadar rumo à superfície.

À margem, as duas Clarice's se deliciaram sob a luz do sol que lhe esquentavam os corpos e tudo iluminava.

Todavia, não demorou muito para que algo as interrompesse. Um fio grosso em forma de tentáculo surgiu na frente das duas e agarrou Clarice primeira que, por sua vez, agarrou Clarice segunda. O fio, que estava preso ao fundo da gaveta de número 3, como se fosse um elástico se comprimiu e assim foi puxando as duas Clarice's de volta à gaveta, de forma abrupta e rápida.

Com muita dificuldade o fio conseguiu colocar Clarice primeira e Clarice segunda dentro da gaveta, as duas extrema e insuportavelmente apertadas. Juntas tentaram empurrar a gaveta, mas estavam tão, tão, tão apertadas que qualquer movimento ali era impossível. Mas não adormeceram. “Aliás, era difícil adormecer depois de despertar”. E foi partilhando esse pensamento que, ao mesmo tempo e sem nada planejar, as duas Clarice's começaram a chamar: “Clarice, Clarice, Clarice”.

“- Clarice, Clarice, Clarice..” - Clarice Terceira, em algum lugar isolado e de silêncio, de olhos fechados escutava. Escutava a si mesma. E assim, foi-se deixando levar por uma sensação profunda de que algo grandioso havia acontecido e estava acontecendo. De súbito, se deu conta de que, naquele lugar isolado e de silêncio, podia dormir ou podia acordar. Clarice decidiu despertar.

Fim

 

Ilustração: Tércio Soares Barbosa


 

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Joana Oliveira
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Roteirista e Audiodescritora

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