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Fresta Literária no Massacre Carcerário

Fresta Literária no Massacre Carcerário
Ed Zambroni
out. 15 - 4 min de leitura
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Grande parte do trabalho que realizo na socioeducação se dá em uma turma provisória na qual os estudantes recém chegados esperam julgamento e ainda não sabem por quanto tempo cumprirão a medida em internação na unidade prisional. Há uma grande rotatividade de jovens que podem ser a qualquer momento alocados para as turmas de internação, ganharem a liberdade assistida ou frequentar os crians, também conhecidos por semi liberdade. Grande parte dos jovens desta turma já frequentaram o sistema socioeducativo, todos moradores das periferias do estado do Rio de Janeiro. Cadeia é tecnologia de última geração pra proliferar a desgraça e o ódio entre os refugiados nos guetos de Pindorama…


Gosto de conversar com os recém chegados sobre a dinâmica da unidade e do projeto de leitura da escola, visto que não existe uma recepção formal da instituição a seus novos hóspedes. Foi o caso de hoje quando soube da estréia de um dos alunos, aproveitei a deixa e macetei aquela visão sobre o funcionamento do projeto e sobre uma biografia de Nelson Mandela. Utilizamos esse livro como referência para atividades de letramento na Escola, mercadoria da braba que por motivos de: ser um quadrinho foda com texto manero e de ser único exemplar que temos de monte na Biblioteca, utilizamos como porta de entrada pra  leituras mais pesadas.  A bolação bateu foi quando comecei a falar sobre o livro, esse jovem primeira vez na unidade argumentou que já conhecia a história e me narrou fatos que constam nas coloridas páginas:

 -- Tô ligado fessor, paularam ele 27 anos de tranca, os maluco do Apartaide deixaram ele na oprimição sem poder ver a família e trabalhando de graça na pedreira. Ainda sim ele não xiznoveou seus irmãos e quando saiu da cadeia ainda conseguiu ser presidente, maluco é monstro.


Eu, abraçado na minha ignorância e ainda impressionado com a prosódia envolvente e sua capacidade de síntese e expressão oral, perguntei se ele tinha visto algum filme do Mandela…

 -- Vi não fessor, nem li o livro todo, mas os menor lá da área quando saíram de Criam me mostraram essa história, altas idéias de mil grau fluiu sobre a privação de liberdade, achei responsa! Hoje é meu dia de tá na tranca, mas o que são meus 9 meses de medida perto de mais de 20 anos na prisão né fessor? Bagulho agora é tirar a cadeia no pique Mandela, sem neurose com os ‘seus’ (agentes socioeducativos) e aproveitar o tempo de bobera pra acelerar nos livros né não!?


Não consegui mais dar aula direito, muitas idéias berimbolando a mente e uma emoção rara de sentir erodindo meu peito… Deixei eles imbicar na playlist  de clipes que eles se amarram e passei o resto da aula imaginando o livro sendo alquimizado na oralidade do pretugues (pra utilizar uma expressão de Lélia Gonzalez), na boca dos jovens da boca, sedentos de fantasia e oportunidade. 



Me marcou muito em seu relato a beleza de expressividade oral que me transportou pro Multiverso dos contadores de histórias de origem bantu sequestrados de África, que vivem nos mestres da Cultura Popular nos rincões do RJ (Capoeiristas, jongueiros, palhaços de folia, funkeiros)... detentores do poder exusiaco da comunicação, a magia da expressão oral ancorada na sapiência ancestral dos povos afroindígenas que irriga os caminhos que sigo. 



Por mais que essa historia seja bonita, é papo de uma bonita pra 100 tristes, se escrevo sobre ela é mais por cisma com o mistério da vida que caça fresta no abismo e por medo de que a densidade do genocídio carcerario brasileiro paralise minha disposição de seguir  fornecendo armamento lírico pra adubar as flores que nascem na selva concreto e aço do apartaide brasileiro.




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