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Fita Amarela

Fita Amarela
Cláudio Costa Val
mai. 2 - 11 min de leitura
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O pequeno Joaquim se acelerava na rua de terra. Precisava chegar rapidamente à praia, onde reencontraria o pai, o irmão mais velho e o tio. Pescadores em sua quarta geração, a família Pereira vivia do mar. 

O menino tinha nove anos e esperava o seu momento de irromper as águas. Seu Agenor lhe prometera, mas Quim sabia que ainda precisaria crescer um bocado, para embarcar com o pai, rumo ao alto mar. 

Corria o ano de 1942. Três meses antes, em agosto, o Brasil declarara guerra à Alemanha e à Itália, depois que o submarinho nazista U-507 abateu navios na costa brasileira, do Sergipe até ali, na pacata Morro de São Paulo. A vila baiana se assustara: em frente à Primeira Praia, souberam de dois afundamentos. Desde então, o receio fazia parte do cotidiano dos moradores. Nas primeiras semanas que se seguiram aos ataques, os pescadores evitaram as águas. Mas, agora, com o ano próximo do fim, a rotina voltara ao normal. 

Quim sonhava em navegar e ajudar o Seu Nô. Pescador veterano, experiente, aprendera o ofício com o avô e o pai, e o transmitira aos filhos. Dias ao mar, outros em terra – era assim a vida do generoso e dedicado Nonô. O caçula Quinzinho o amava. Do ponto mais alto da vila, próximo ao farol, seus olhinhos encantados contemplavam a imensidão azul. Inúmeras vezes o vira partir, e se acostumara: bastava contar os dias, olhar o horizonte, observar a posição do astro-rei, sentir o vento. Não dava outra: ao longe, reparava o barco surgindo: “o pai tá voltando”. 

Naquele fim de tarde dourado, antes do sol se encostar às águas, o menino ensebava as canelas. À praia, chegou muito antes da pequena embarcação. Com os pés na água, pensou: “um dia, serei eu a retornar”. 

Não demorou e o “Fita Amarela” se aproximou. Embora tivesse esse nome, era pintando de azul e branco. Mas Quinzinho sabia: o barco fora batizado em homenagem à música homônima de Noel Rosa, gravada pela dupla Francisco Alves e Mário Reis, intensamente cantada no carnaval de 33, o ano em que nascera. Segundo Seu Nô, barco e filho “ficaram prontos” quase no mesmo dia e, enquanto Quinzinho vinha ao mundo, a música tocava por perto, no rádio. O menino se orgulhava de saber que ele e o barco possuíam a mesma idade. E que a canção, mesmo famosa, era só deles. Conduzindo o “Fita”, o pai o viu. A imagem era, quase sempre, a mesma: o garoto ansioso, de pé, com o mar batendo nas canelas finas. Sorrindo, acenou-lhe. 

Tonho desembarcava primeiro. O irmão mais velho de Quim já contava vinte e um anos e sua mulher, Aurora, esperava o primeiro filho. O rapaz era moreno, alto e forte. Usava colar de conchas e tinha os dentes muito brancos. Quando sorria, iluminava a todos. Para o menino, era extraordinário acompanhar o irmão pulando nas águas e puxando o barco. Certa vez, alguém dissera: “Tonho e o mar se entendem”. Joaquim nunca duvidara. 

Com o barco atracado e o motor desligado, era hora de o menino ajudar a tripulação. 

– E aí, Quim? – indagou o irmão, atrapalhando-lhe os cabelos. – Dessa vez, a pesca foi ótima! 

Tio Valmir ainda ajeitava algumas coisas no barco, quando o pai saltou à areia. 

– Tudo bem, filho? 

– Hum-hum. 

– Sua mãe e suas irmãs? 

– Na mesma. 

Abraçando-o, Seu Nô sorriu. 

– Vá lá, dar a mão ao tio. 

– Tá bom. 

Naquela noite, o jantar foi maravilhoso. Sempre que Nonô e Tonho retornavam, Dona Leca, as três filhas e a nora Aurora os paparicam. Tio Valmir morava na casa ao lado. Mais jovem que Nonô, tinha dois garotos e uma menina, ainda pequenos. A família ali se fixara havia décadas, outros irmãos e primos também habitavam a região. Mas era como se todos na vila fossem parentes. 

Após a mesa farta, sorrisos e histórias do mar, chegava a hora do descanso. Pela manhã, os pescados seriam levados ao mercado. 

Menos de três anos depois, em maio de 45, a notícia do fim da guerra chegou. Entre os moradores da vila, o assunto foi bastante comentado. Muitos se lembraram dos ataques nazistas, que obrigaram o Brasil a entrar no conflito. Na pequena embarcação azul e branca, navegando próximo à praia e observando as águas, Quim divagava: “o mar, tão belo e cheio de vida, servindo de lugar a algo tão terrível... Ainda bem que a guerra acabou. Que nunca mais se repita”. Agora, aos doze anos, o rapazinho acompanhava os homens, em pequenas incursões marítimas. Seu Nô gostava. Mesmo assim, o aprendiz de pescador observava a imensidão, aguardando o seu momento de “ir além”. 

Em 1946, uma tempestade fortíssima assolou a região. Vários barcos voltaram antes do programado. Assustados, os pescadores contaram que o vento forte e o mar bravio sacolejava-os “mais que nunca”, e que as ondas eram altíssimas. O “Fita” e outras duas embarcações ainda não haviam retornado. Preocupado, contrariando Dona Leca, Joaquim correu ao morro do farol, na esperança de enxergá-lo. Mas as condições do clima estavam, de fato, horríveis. Mal se via o horizonte. Naquela tarde, Nonô, Tonho, Valmir e o ajudante Lúcio não retornaram. Preocupada, a mãe abraçou-se às filhas, enquanto Aurora cuidava do pequenino Miguel. 

Na manhã seguinte, com os primeiros raios de sol, vários barqueiros lançaram-se ao mar, na esperança de encontrar os companheiros. Talvez, avarias tivessem prejudicado a navegabilidade das embarcações. Poderiam estar em apuros. A Capitania dos Portos fora avisada. Os parentes dos pescadores acreditavam que, logo, notícias chegariam. 

Quatro dias se passaram, sem que qualquer novidade surgisse. Diariamente, os barqueiros solidários partiam, e só retornavam ao fim da tarde. Dona Leca não parava de orar, pedindo o retorno do filho e do marido. Ao meio da tarde, notícias chegaram: a Marinha encontrara um homem à deriva, agarrado a um pedaço de madeira. Debilitado, o sobrevivente fora levado ao hospital, onde se recuperava. Não demorou para que soubessem que se tratava de Tonho. Abraçada a Miguelzinho, Aurora se debulhou em lágrimas: “o papai tá vivo, meu filho!... O papai voltou!”. Para a família, a informação teve sabor ambíguo: havia o alívio, por saber que o primogênito sobrevivera, e existia a tristeza, pela confirmação de que algo terrível acontecera. Onde estaria Nonô? 

Dois dias depois, Tonho apareceu. Tinha os lábios ressecados e rachados, estava tomado por olheiras profundas. Emagrecera. Toda a vila se reuniu para recebê-lo. Aos parentes e amigos, contou que a tempestade fora tão forte, e que o mar ficara tão violento, que o “Fita Amarela” partiu-se ao meio. O céu escurecera. Os tripulantes foram jogados ao mar. Tonho procurou pelo pai, tio e amigo, mas não os encontrou. Amedrontado, agarrou-se ao primeiro destroço que viu. Sobreviveu às ondas e esperou. Certamente, sua boa saúde o fez resistir tantos dias, sem água potável e comida. “Tonho e o mar se entendem”, lembrou-se Joaquim. 

Passaram-se vinte e quatro horas e dois homens, de outra embarcação, também foram resgatados. Estavam em estado bem pior que Tonho. No relato, a mesma coisa: a tempestade rapidamente os levara a pique. 

E foram apenas os três. Ninguém mais foi encontrado. Nonô, Valmir, o jovem Lúcio e outros cinco pescadores foram declarados mortos. As famílias se devastaram. Embora soubessem dos riscos, ninguém esperava por tamanha tragédia. Tentando honrá-los, Irineu, o decano da vila, concluiu: “homens do mar devem morrer no mar”. 

Os anos se passaram. O sofrimento e a ausência do pai aceleraram o amadurecimento de Joaquim. Mantendo a tradição, o rapaz seguiu o oficio dos antecessores. Adquiriu o seu barco, batizou-o de “Nonô e Valmir”. Casou-se, teve quatro filhos. Sempre que navegava, vinha-lhe a certeza: “em tudo que fazemos, o perigo está presente. Mas a água é vida. É esperança. É o que faz este planeta ser o que é. Enquanto existir o mar, os homens sobreviverão. Devemos temê-lo e, ao mesmo tempo, amá-lo”. 

Em 2022, ao completar oitenta e nove primaveras, o velho Joaquim se orgulhava da vida que escolhera. Das águas, extraíra o sustento da família. 

Acomodado à pequena varanda, observava o horizonte e se fixava nas variações do azul. Pensava em como o mundo se transformara. E como se mantivera firme em seu propósito. A casa da infância não mais existia. Outra fora construíra, a poucos metros de distância, defronte o mar. Cercado pela esposa, filhos, dez netos e quatro bisnetos, o velho pediu: 

– Marcelino? 

– O que é, vô? 

– Esse seu aparelho novo toca música? 

– É claro, vô. Todos tocam! 

– Põe aquela aí, pra mim. 

– Beleza! 

Em instantes, com algumas mexidas na tela do celular, Marcelino fez com que “Fita Amarela” soasse. O velho suspirou. Deixou que a canção do Noel lhe ocupasse a mente, o corpo, a alma. Contemplou o mar. Levantou-se. Lentamente, sob os olhares dos parentes, seguiu em direção à praia. 

– Aonde o senhor vai, vô? 

Joaquim não respondeu. Atravessou a rua, caminhou pela areia, aproximou-se do mar. Colocou as sandálias de lado. Três passos bastaram, para que a água lhe batesse ao meio da canela. Fechou os olhos. Mergulhando no tempo, viu-se criança, feliz, observando o pai lhe acenando, enquanto Tonho atracava o “Fita Amarela” na areia. “Mesmo com todas as dores, como a vida é simples e bela!”, concluiu. 



* Menção  no XVIII Concurso Nacional de Contos "Prêmio Jorge Andrade" (2020).   


** Conto integrante do livro “Júbilo, papagaios, medo: contos do meio e do fim” (Editora Uiclap, 2023). 



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