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ESPERANÇA

ESPERANÇA

(História verídica). Quando N. assistiu ao filme Titanic pela primeira vez, uma das frases mais trágicas e marcantes que gravou foi: “o Titanic vai afundar.” Era apenas uma criança. Jamais imaginou que em 2020 aquela frase pudesse ressurgir com tanta intensidade. A luta pela sobrevivência diante do cenário caótico do naufrágio poderia ser comparada aos atuais acontecimentos, nos quais ficaram em jogo os sentimentos, os afetos e a vida.

Uma pandemia se alastrou pelo mundo e afetou de uma maneira estranha a economia, a política, a religião e a sociedade. As consequências foram catastróficas. Mortes, depressões, falências, desempregos. Por outro lado, a humanidade presenciou atos de heroísmo e bondade que serão sempre lembrados.

N. não era nenhum herói. Quando recebeu a notícia de sua demissão, respirou fundo, mas a ficha não caíra. Somente quando teve de deixar seu apartamento e voltar para junto de seus familiares em outra cidade, foi que finalmente percebeu que nada mais seria como antes. A ansiedade cresceu no limiar da sua mente, tomou conta dos pensamentos e pouco a pouco sua capacidade de iniciativa foi esmaecendo.

Mas quem era ele em um mundo tão gigantesco? Quantas aflições a humanidade não padecia para que alguém se importasse com a dor na qual estava imerso? Era apenas um grão de areia. Porém, mesmo tão pequeno e se sentindo sozinho como nunca estivera na vida, ainda existia, e somado a outros bilhões de grãos de areia, unia-se a eles ainda que cada um na sua individualidade, através do sofrimento e incertezas que se abateram sobre a terra.

Durante o período de isolamento iniciou-se o verdadeiro confronto psicológico. Como em um filme, os espectros de pessoas que fizeram parte de sua história surgiam diante dos seus olhos; momentos saudosos percorriam sua memória e logo se esvaneciam; vozes distantes ecoavam em sorrisos e conversas amistosas. Reminiscências. Pensava nas oportunidades desperdiçadas e nos lamentos. Sentia saudade de tudo, mas era como tentar reviver as cinzas de um tempo esquecido. Nada mais voltaria. Nem mesmo o tempo presente se firmava, antes escorria como água e se perdia no desconhecido até desaparecer muito mais rápido do que as lembranças de outrora.

Seu dia-a-dia era dividido em afazeres autômatos e recordações angustiantes. O único prazer que mantinha era pela escrita, mas ao longo dos dias, seus manuscritos começaram a acumular camadas e camadas de poeira. Supunha que ninguém jamais conheceria suas obras e que isso não faria a menor diferença. Conseguira ler alguns livros, mas por conta do seu estado, perdia a concentração facilmente. Há meses seguira os procedimentos para plantar um galho de uma frutífera, mas ainda não obtivera resultado.

Sua impaciência o deixava cada vez mais deprimido e frustrado. Ele sequer chorava, vítima de um torpor quase doentio. Nunca fora de abraçar, nem apertar mãos ou mesmo beijar. Agora que tudo isso fora proibido, compreendia a necessidade desse contato alentador. Por isso sofria, não propriamente por ele, mas pela grande maioria das pessoas.

A pandemia levantou uma questão sobre a vida. Ninguém estava inteiro. Por fora até se viam as faces forçadamente alegres ou mesmo mostrando seu verdadeiro aspecto lúgubre. No entanto, por dentro todos estavam em pedaços, esmigalhados sobre as bases do seu mundo particular abalado. E onde fossem, teriam de carregar seus montes de cacos para encontrar um meio de se consertar apesar de tudo. Muitos estavam feridos demais para buscarem isso. Eram duas guerras. Uma contra a doença invisível e a outra na alma.

Um dia em seu quarto, sentado na beira da cama, no ápice de sua melancolia, olhou fixamente através do tempo e teve um encontro inusitado e embaraçoso. Fugira disso a vida toda, mas o destino viera colocá-lo frente a frente com ele. Seu Eu do passado o encarava seriamente. Silêncio. Conhecia aquele olhar, só não lembrava da inocência e da pureza. Então, sem saber como se expressar, N. disse: "Sinto muito". O outro respondeu: "A culpa não é sua." "A pandemia veio me mostrar o meu fracasso", afirmou N. "Na verdade ela o tirou do seu egocentrismo, da rotina preestabelecida para que pudesse rever a existência. Só assim você estará preparado para apreciar o mais belo nascimento", redarguiu o Eu do passado. N. indagou: "De quê?". E ele respondeu: "Da Esperança".

Essa rica conversa consigo mesmo durou pouco, mas foi o bastante para trazer um sorriso ao seu rosto. No dia seguinte, ao verificar sua planta, pôde notar com entusiasmo as raízes despontando na extremidade do caule. Olhou para o céu profundamente agradecido a Deus. Isso o fez lembrar-se de repente de que naquele “naufrágio” tão desolador, ainda havia sobreviventes, embora muitos apavorados e tristes aguardando um socorro. Então, era possível reconquistar a vida e a liberdade. Sim, a esperança de se erguer e lutar, dentro de cada um, brotaria novamente e o mundo inteiro voltaria a sorrir. Imediatamente entrou em seu quarto e apanhou seus manuscritos para dar continuidade a última frase inacabada: “Esperança é... viver.”

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