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E você...? O que vem pensando é preconceito ou idiossincrasia?

E você...? O que vem pensando é preconceito ou idiossincrasia?

Escrevi dois livretinhos este ano de 2020! Ambos voltados para a temática do real e do imaginário enquanto estado híbrido de formação de patrimônio cultural de uma cidade. Nem todo mundo se dá conta, mas as memórias, todo o imaginário que permeia a consciência social de uma localidade compõe e muito a identidade cultural da mesma... Ainda mais se essas memórias refletem ideias e crendices logo quando toda a colonização do local se iniciou... A pandemia (pelo menos pra mim) foi boa pra isso... consegui colocar dois projetos em atividade. Projetos esses há muito tempo "encaixotados" no interior de meu arquivo mental!

Juntamente com esses dois livretinhos, dei seguimento também à escrita da minha dissertação. Minha área no Mestrado é em Filosofia, mais precisamente em Ética e Filosofia Política, com o tema envolvendo conceitos da atualidade com uma pensadora chamada Hannah Arendt (1906 - 1975)...


Hannah Arendt


Amigos!! Vocês não fazem ideia de como é complicado compreender essa mulher! Arendt pensa muito e em vários eixos... pra acompanhar o fôlego dessa pensadora, é necessário muita paciência e perseverança!

Mas, o que tem a ver "alhos com bugalhos", afinal? Comecei falando dos dois livretinhos que escrevi, depois segui pra o texto da minha dissertação... bom, na verdade o segundo assunto complementa o primeiro... Eu explico pra vocês: Arendt fala da importância de mantermos preconceitos uma vez que somos plurais e, sendo assim, para vivermos publicamente, necessariamente precisamos respeitar essa pluralidade e as opiniões dos demais (os pré-conceitos)... Aí pensei: a memória, a maior parte da História, são compostas sobremaneira de preconceitos! Aquele tipo de ideia que surge em um determinado período de tempo e permanece de forma inquestionável, irrefletida, e assim segue quase que como um "mandamento divino", ou como um axioma social que abarca toda as particularidades em uma noção universal e, portanto, geral.. Mas como manter todas as particularidades fixadas em um contexto universal de opinião? Se pararmos para analisar, essa questão não parece coisa de "outro mundo" e nem assunto "esquisito"...

Essas ideias totalizantes ainda existem muito - de sentidos irredutíveis que temos desde nossa infância, por exemplo, e que até hoje os consideramos inflexíveis, como uma verdade inabalável - ainda em nossas vidas... Aparecem lá de forma quase imperceptível, como o péssimo hábito de julgarmos uma pessoa pela aparência, ou pela forma que está vestida, pelo bairro que mora, pelo credo que exerce... A coisa fica ainda pior quando a questão é a cor da pele... 

Já se perguntaram de onde vem esse preconceito? Para Arendt, temos preconceitos (que são necessários na vida pública) e idiossincrasias... Estas últimas se referem àquilo que emitimos baseados em algo meramente particular, ou seja, nossos julgamentos mais superficiais, aqueles que não articulamos inicialmente na esfera pública com nossos pares sociais e, que, portanto, partem meramente de "achismos" que criamos em nosso pensamento (vida privada). Essas idiossincrasias, por serem criadas e vividas apenas dentro da gente, não podem ser manifestas a público (justamente por que não fazem parte desta esfera). Nosso juízo, portanto, pode ser composto por preconceitos, mas não por idiossincrasias. 

Quando emitimos juízos tendo por base nossas idiossincrasias, temos a manifestação do nosso ego... de nossos pensamentos que, em grande medida, são egoístas! Daí vem toda a barbárie que pode haver em virtude disto: tal como acontece com o racismo, o ódio que leva aos assassinatos, aos feminicídios, infanticídios, e outros crimes bárbaros. Mas o racismo não é um preconceito? Sim, talvez o mais antigo de todos os preconceitos... contudo, ainda parte antes e de forma mais primária de um achismo pessoal (uma idiossincrasia) e, portanto, não deveria e não poderia aparecer na esfera do público e nem assimilar simpatizantes.

Os preconceitos, por sua vez, podem existir na vida pública, pois são uma forma, ou ainda, uma linha que liga a opinião ao conhecimento. Quando refletimos sobre nossos preconceitos (no sentido de pré-conceito), passamos a descobrir e aplicar um sentido de ser a esta ideia pouco desenvolvida. Portanto, passamos a buscar respostas e aprofundamentos, logo, obtemos conhecimento! É algo mais responsável do que a simples opinião. Preconceito, deste modo, tem a ver com distinção, com discriminação, mas não no sentido de que algo é superior e outro algo é inferior, nem no sentido de que há um melhor e um outro pior. O discriminar, neste pensamento, é no sentido de olhar e identificar as diferenças para que possa haver a compreensão das várias pluralidades. O significado de "diferença" se mantém equivalente à "pluralidade".

O patrimônio cultural baseado em memórias da sociedade assume, portanto, um sentido dicotômico (duplo): por um lado, é um importante demarcador cultural, pois explica e trás à luz costumes, pensamentos, crendices de um povo que viveu naquele local e, de alguma maneira, interfere no cotidiano presente das pessoas que ainda lá vivem; por outro lado, quando refletido, trás a tona também as idiossincrasias que permeiam a construção da consciência coletiva dos moradores deste local e, toda a hipocrisia e contrastes sociais se manifestam de forma desnuda.

Pensar sempre é um parto... que de nada tem de normal... mas é necessário para estarmos conscientes do que, onde e com quem estamos vivendo. O real e o imaginário se fundem na maioria das vezes... e daí surgem as alienações...

 

INfluxo
Cristiane Roberta Xavier Candido
Cristiane Roberta Xavier Candido Seguir

Sou professora formada na área de Filosofia, tenho um programa de webrádio chamado Programa Alô Alô Marciano pela Kula Webrádio na cidade de Toledo/PR, participo do Conselho Municipal de Políticas Culturais deste mesmo município e sou agente cultural

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