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Dias de Flagelo 2

Dias de Flagelo 2

A pouco mais de um ano atrás passei por uma forte depressão que me fez atirar-me à cama horas sem fim, passando os dias enregelado, atávico, soçobrando em alma como uma nau à deriva. Nunca pior desgosto acontecera-me. De que importava o sol, se para mim ele já não mais brilhava? Tal estado é uma renúncia à vida, uma morte prematura, uma morte em vida. Felizmente passaram-se poucos meses e recuperei-me. Já não precisava estar sempre acompanhado nem em busca de distrações. De acocorado, pus-me novamente em direção ao sol.

Logo vem a pandemia, e estranhamente não me inclinei à tristeza nem ao azedume. Ao contrário, possibilitou-me esta ter mais tempo para escrever e desenhar. Enquanto quase o mundo inteiro convalesce em tédio, oprimido sob quatro paredes, eu permaneço inteiro, a cada manhã escrevendo versos, e estes são meus portais dourados que me levam ao enlevo.

A única solução para este tormento é agarrar-se de bom grado ao santuário que é o lar, esforçando-se por embelezá-lo, dando ao ambiente uma aura alegre. Para isso concorre em muito as pinturas com que o ornamos e as cores que escolhemos para suas paredes, além dos pensamentos que avoamos em seu meio e os incensos que acendemos. Raramente nos sentimos bem em algum lugar. O lar, é bem verdade, é uma espécie de alma-grupo. Toda mãe é sacerdotisa desse templo. 

Triste condição daqueles que financeiramente não podem dar-se ao luxo de privarem-se de sair às ruas para sustentarem-se. Muitos neste instante passam fome e desalento como nunca antes. As gentes mais pobres empobrecem-se ainda mais, e o governo, que do povo deveria zelar, sobretudo dos mais pobres, dá-lhe como auxilio um pão mesquinho para que subsista, e ainda querem diminuí-lo! Ama-se mais as finanças que ao ser humano! Ama-se mais o egoísmo que a compaixão!

Por que aqui a revolta é tão escassa? E por que a massa apoia os poderosos que com nada se importam, exceto com seus círculos familiares e de amigos? Este, um lugar pátrio desvencilhado de inúmeras questões. Como povo, imitamos os avestruzes, enterrando a cabeça sob a terra.

E qual será a razão, enfim, de todas as pestes? Seria a Natureza aviltada e revoltada dando aos homens uma lição? O Dies Irae dos clérigos? Seriam os deuses das quatro direções, os Maharajas ou Arcanjos, aplicando um castigo merecido pelos pecados acumulados dos homens? Seria, em suma, uma reação inteligente e obrigatória de alguma força qualquer, superior à humanidade e invisível, agindo em contrapeso às causas geradas pela falta de espiritualidade de nossa civilização? Seriam os devatas ou larvas astrais, como chamam os orientais ao primeiro, e como dizia Paracelso ao segundo?

Minhas dores, neste momento, são para com meus irmãos mais pobres, e para com todos aqueles que estão desassossego.

Tratemos, todavia, de ver neste flagelo apenas uma bruma que cedo ou tarde há de dissipar-se. Após a névoa macilenta há de surgir o sol por detrás do monte alcandorado. As lágrimas de hoje, vertidas com pesar e sangue, serão a ponte levadiça a um mundo melhor.

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