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Crônica natalina

Crônica natalina

          Aquela noite passara mais rápida que as anteriores. Em meio aos carros e faróis reluzentes ele sentava na calçada para contar as moedas apuradas na noite de trabalho limpando dezenas, talvez centenas de para-brisas. Ao seu lado o colega de escola avisava que continuaria até tarde e que se ele quisesse poderia ir sozinho subir o morro. Carlos se despediu do amigo e prometeram um ao outro que se encontrariam na escola na próxima segunda-feira. E era noite de natal.

           Carlos subiu o morro antes das dez da noite. Pelo caminho para o barraco cumprimentava os moradores da comunidade. Via gente que descia o morro para trabalhar no mesmo sinal em que ele estivera há pouco. Moças maquiadas, de roupas curtas que riam e se divertiam e falavam alto mostrando a todos ao redor que eram felizes. Como se a felicidade testemunhasse que eram fortes para suportar a noite que então começava.

          “Aê muleque! Ralando pesado hein?! Num já te disse que aqui cum a firma tu trabalha pouco e ganha muito?! Quando quiser é só falar valeu? Segue teu rumo, vai na paz”. Com voz de homem, de fuzil em punho, o moço que acabara de falar com Carlos tinha apenas oito a mais que ele. O menino agradeceu e recusou mais uma vez dizendo que a mãe não se agradaria, contudo era sua a decisão de não entrar no tráfico. Com nove anos de idade o garoto já testemunhara muitos amigos morrerem naquela vida.

          O caminho para o barraco era longo e se estreitava à medida que se atingia o ápice do morro. Um barraco simples feito de tapumes de construção civil, catados e levados com muito esforço pela jovem mãe e pelo menino. O abrigo era pobre, mas caprichado na limpeza e na organização. Dois cômodos e um banheiro protegiam a pequena família de três integrantes do frio, da chuva e do sol.

          O garoto chegou, foi abraçado pela mãe e recebeu de suas mãos o pequeno irmãozinho de dois anos. Carlos tirou do bolso o que conseguira no sinal e entregou à sua mãe. Ela contou o dinheiro, juntou com mais uma pequena parte que estava em uma lata, sorriu para o menino e disse: “Hoje teremos uma ceia!”. Assim ela deixou Carlos e desceu o morro.

          Abraçado ao pequeno irmão, Carlos contemplava a cidade iluminada. Admirava as milhares de luzes dos faróis dos carros e as muitas antenas de celulares que enchiam sua vista de beleza. Pequenos shows de fogos de artifício pipocavam em diversos lugares daquela paisagem urbana dando um brilho especial àquela noite. Dez metros à frente da pequena casa, em uma laje abandonada, um olheiro do tráfico fumava um cigarro de cócoras, na outra mão uma pistola automática.

          Ao lado da morada de Carlos, o único vizinho escutava e cantava em um inglês improvisado um sucesso da disco music da década de 70. Bianca, nome de guerra, era uma transexual cujo tempo já lhe tirara a beleza e a vontade de se expor. Era na música saudosa dos fins de semana que se podia ainda ouvir sua voz. A mãe de Carlos adentrava o barraco naquele instante.

          Arroz temperado com ervilhas em conserva, farofa de cebola e alho, um frango assado no velho forno e um refrigerante configuravam a modesta ceia preparada para aquela noite de natal. Sob a luz da única lâmpada da casa fora montada uma mesa com quatro cadeiras e dispostos de forma simples, porém ordeira, os copos, pratos, talheres e alimentos.

          Mãe e filhos se sentaram, Carlos ainda com o pequeno irmão no braço observava a mãe em silêncio. Ela olhou para o garoto e para a porta da rua. Lá fora tocava a música nostálgica de Bianca. Ela se levantou e disse: “Espera aqui Carlin”. Dois minutos depois a mãe de Carlos adentrava a sala acompanhada de Bianca. A peruca desarrumada e a maquiagem borrada denunciava que havia chorado, agora, porém sorria e agradecia o convite. Meio desajeitada buscava o prato e os talheres para começar a se servir. Nesse momento Carlos pediu um minuto. “Perai mãe.” Saiu e pouco tempo depois entrava acompanhado do olheiro. Em sinal de respeito o homem escondeu a arma, jogou fora o cigarro, agradeceu o convite e sentou-se ao lado de Bianca. Após uma pequena oração os cinco começaram a comer e o gelo inicial pouco a pouco foi quebrando-se naquela ceia natalina.

           Como estava no topo do morro, o barraco de Carlos era o mais próximo do céu. Naquela noite havia uma estrela cujo brilho se destacava das demais e que parecia estar muito perto da terra, na verdade muito perto do barraco de Carlos. Ao contemplar aquela estrela, através de uma brecha entre as telhas, em meio ao silencio da humilde refeição compartilhada, Carlos percebeu que se Deus existia, ele deveria estar bem próximo de sua casa. Na verdade, ao contemplar todos ao redor Carlos viu que Deus estava nos olhos esperançosos da mãe, no sorriso ingênuo do irmão, no cansaço da vida de Bianca e no riso ocasionalmente despreocupado do olheiro. Naquela noite Carlos aprendeu, sem que ninguém lhe explicasse com palavras, o real significado de amar incondicionalmente.

 

INfluxo
Jorge Pontes
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Escritor freelancer, caçador de seleções literárias das quais colho vitórias e de outras apenas "não foi dessa vez. Professor de língua portuguesa, inglês e artes na cidade de Maracanaú-CE. Morador da terra do sol, Fortaleza bela.

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