[ editar artigo]

CRÔNICA DE UM ABRAÇO

CRÔNICA DE UM ABRAÇO

“Tem alguma coisa errada ai.”

“O que, onde?”

“Lá atrás.”

“O que foi filha? Quer voltar? Vamos voltar.”

Foi entre abril e maio. Não que agora estejamos menos vigilantes, mas naquele período, as notícias, o recente isolamento e a distância de uma possível normalidade compunham um cenário bem mais temeroso que agora. De alguma forma adaptamo-nos um pouco mais, dia após dia com essa situação. Naquela noite, porém, uma mocinha de dezessete anos rompia em soluços na parte de trás do carro. Depois de anos de carinho e afago exclusivos ela não pode afogar-se no abraço confortável de uma carinhosa avó nos seus setenta e dois anos de vida.

Amor de vó! Não o tive, mas pelo que vejo entre minha filha e minha sogra, desde a mais tenra idade, deve ser um amor muito gostoso. Superado o ciume, aprendi a contemplar essa relação de cumplicidade, paciência, risos e afagos que as duas revelam sentir uma pela outra sempre que se abraçam. Naquela noite esse amor fez muita falta para minha moça.

O retorno foi rápido. Minha sogra ainda estava na área, sentada em sua cadeira de balanço, observando a movimentação rotineira que se fazia na praça defronte sua casa. Para alguns jovens a pandemia parecia apenas uma doença a mais. O tempo e os óbitos crescentes conscientizariam muitos. Ao ver o carro retornando ficou assustada procurando saber o que havia ocorrido.

“Que foi? Esqueceram alguma coisa?” Perguntou a solicita avó.

“Voltamos, ela quer abraçar a senhora.” Ao meu aviso, as duas entraram e uma diferente e cautelosa operação teve início. Dois grossos lençóis, um para cada uma. Após enrolarem-se cuidadosamente veio o abraço. Era tanto amor, tanto aperto que o afeto podia ser sentido por todos que estavam naquela sala testemunhando a força que tem o carinho entre uma neta e sua avó. Despedimo-nos mais uma vez e retomamos nosso caminho para casa.

Naquela noite, no segundo retorno, minha filha ainda voltou calada. Estava em silêncio e era possível perceber ainda uma ponta de tristeza em seu olhar. Mas estava aliviada. De tudo que presenciei naquele momento, o mais gratificante foi ter visto que aquela menina havia crescido como pessoa e como ser humano. Ela havia vencido aquela barreira que alguns jovens criam perante as fragilidades humanas. Em vez de mostrar-se superficialmente forte, teve a coragem de pedir para amar e eu não hesitei em nenhum momento em propor aquele retorno... Ainda bem! Que nossos abraços possam ser tão fortes, sinceros e amorosos como os de minha sogra e minha filha.

Foto de Andrea Piacquadio

 

INfluxo
Jorge Pontes
Jorge Pontes Seguir

Escritor freelancer, caçador de seleções literárias das quais colho vitórias e de outras apenas "não foi dessa vez. Professor de língua portuguesa, inglês e artes na cidade de Maracanaú-CE. Morador da terra do sol, Fortaleza bela.

Ler conteúdo completo
Indicados para você