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Crônica de Ontem

Crônica de Ontem

Sábado no Rio sempre foi dia de movimento. Como disse há pouco tempo, me mudei. Agora moro em Santa Teresa, perto da escadaria Selaron. Ponto turístico muito frequentado, que leva à ladeira de Santa Teresa, que por sinal dá no Convento das Carmelitas. Um prato cheio para quem gosta de andanças. Pois bem, passo diariamente por tal ponto turístico. Me esquivo de turistas mascarados, cantoras em pretensa ascensão, descendo as escadas com o rosto iluminado, seja de pó ou de luz artificial. Essa semana vi uma drag se equilibrando, belíssima, num salto e descendo enquanto mexia a boca. Eu já perdi as contas, em pouco tempo, de em quantas fotos eu já devo ter aparecido, ou com cara de apressada, descendo ou quem sabe, com uma bunda murcha de quem está vencida pela subida. Triste. Ontem eu desci com Bruno. Tempo nublado. Pandemia na atividade. Os turistas firmes na escada. Passamos pelos arcos, outro monumento conhecidíssimo. Começou a chover, nos abrigamos num dos arcos. De repente, do outro lado, em frente ao Circo Voador, eclode uma briga entre pessoas em situação de rua. O mais alto acertou um murro de direita, o outro tentou, mas socou o ar. Tomou outro soco. O rapaz do soco era bom, levou o de camisa azul para o chão. Três amigos ficaram num "vai-não-vai", uma mulher do grupo, pirulito na boca, gritou, "para, para, para!". Observei, não nego. Os dois estavam embolados no chão. Não deitou um sangue sequer da treta formada. O que parecia bom de briga imobilizou o da camisa, sem agarrar as vestes, observo. O grupo de amigos em volta. Dei mais uns passos, a caminho de meu destino,  vi mais turistas, felizes batendo foto. Roupas impecáveis. Sorriso no rosto, sem máscara, né? O pau comendo, suave, lá atrás no Circo. Olho para a minha direita, no depósito, já do outro lado da rua, toca uma música animada. Aqui perto de mim, dois outros homens improvisam uma coreografia e acenam para um terceiro que passa. É, meu bem, a pandemia parou a vida de uns. Já outros, seguiram do jeito que deu. Algumas coisas a gente resolve só no soco mesmo.

INfluxo
Ludmilla Tosoni
Ludmilla Tosoni Seguir

Mulher em processo contínuo de mutação. Sangue corrente, por veias, pulsos e pernas. Por vezes seca, por vezes úmida, por vezes amarga, mas sempre viva. Escrevo para fluir em mim mesma.

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