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Crônica de Natal

Crônica de Natal

      Hoje eu não escrevo para você. Escrevo para mim e para não esquecer quem eu sou.  Escrevo porque houve um tempo em que aviões transportaram, sem saber, um vírus novo e o mundo inteiro padeceu de velhos problemas. Estamos, nesses tempos, divididos em dois grupos: um, pequeno, que teme o vírus e o outro, numeroso, de pessoas que usam máscara e álcool gel, mas cujo temor maior não é o contágio porque, para elas, a tragédia já aconteceu. Pertenço a esse segundo grupo e escrevo para que, quando tudo terminar, eu me lembre desse medo de acordar sem poder planejar nada e me veja pequena, exatamente como sou; escrevo, sobretudo, para que eu não cometa o erro imperdoável de olhar para quem estiver como hoje estou e julgar, dizendo que deveria fazer mais ou que poderia, sozinho, superar suas misérias: assim como Teseu precisou de Ariadne para sair do labirinto, sem apoio somos devorados.

      Nas ruas, barracas em forma de iglu se multiplicam; nelas, a miséria, mas não a solidão: dividem suas dores e dividem o pão. O senhor, com cobertor nas costas, caminha acompanhado de três cães bem cuidados e, ali perto, alguém limpa sua barraca porque teve festa noite passada, com muita droga e “corotinho”. A adicção pode ter começado antes da vida na rua ou em função dela, mas se faz presente, porque a madrugada é fria e nem sempre dá para matar a fome com as sobras do restaurante, porque o banho hoje é luxo e a sujeira incomoda e porque a cada dia que passa, fica mais difícil voltar para casa, mesmo quando se sabe o endereço, porque vergonha, culpa e ressentimento constroem muros altos, quase intransponíveis. Para tudo isso que dói é urgente alguma anestesia: sonhar é preciso, principalmente para quem cruzou a linha imaginária que transforma o filho, o pai e a filha em “nóia”, “favelado”, “pedinte”, “drogado, “puta”, “travesti”. Antes era: _Bom dia! Hoje é: _Não tenho, moça! Ela sorri: batom vermelho. Sim, ela era vaidosa e ainda é. Não tem casa, mas passa esmalte no pé, arruma o blazer doado que é mais curto que a camiseta do Raul que pôs por baixo. “_ Toca Raul!” - alguém grita! Ela nem nota; arruma o cabelo de um jeito bonito: a raiz branca está grande, mas nem por isso vai relaxar. Na comunidade também não falta salão de beleza, tanto quanto há igrejas; são eles, os religiosos, que estão no beco, na cadeia e nas ruas; sim, há muito corrupto em cima dos púlpitos, mas há, também, muitos fiéis tentando manter acesa uma chama que ilumine seus caminhos durante as noites escuras da alma. Gente - da umbanda, kardecista, crente...- que tenta brilhar, mesmo nascendo invisível e crescendo nas sombras. Gente que tenta resistir, como Jesus.

      ... e depois de amanhã é Natal, um dia que deveria ser feliz, mas esse ano não será porque muitos estão mortos e os demais estão separados. Jesus nasceu há dois mil anos e ainda não aprendemos a amar, mas o isolamento da pandemia ensinou que contato humano faz falta e por isso o dia amanheceu triste e eu estou nublada -mas não é de hoje -. Escrevo no notebook (talvez tenha que vendê-lo também) porque ontem, na aula de literatura, aprendi que Paul Ricoeur diz “conto-mo, logo, existo!” e eu preciso me contar para não desaparecer. Estou desempregada há meses, a previdência negou outra vez meus direitos e, mês passado, minha família trocou as fechaduras da casa: querem que eu suma de vez, não há dúvida! Mais um dia vejo os cadastros que fiz em todos os sites gratuitos de emprego e apps, checo os grupos de vagas no Face, faço mil currículos diferentes - um para cada função -, em docx e pdf, com foto e sem foto, um tem duas páginas, outro, uma só. “Último salário”. Ponho a verdade? (Não era muito, mas podem achar que não aceito menos). Pretensão salarial: “a combinar”. Não estão mais aceitando “a combinar”: tenho que colocar, mas quanto? Um salário mínimo? Vou parecer desesperada... e, na verdade, estou. Adoraria esbarrar no mercado com alguém que me fizesse uma proposta indecente. Que absurdo! O que estou dizendo? Mas quanto poderia ganhar e eu como faria para mostrar que estou “disponível para o crime organizado”? Dou risada sozinha. Devia esperar me formar para, pelo menos, ir para a cela especial. Não, não, minha esposa me larga se eu for presa: tem muita lésbica na cadeia e ela é ciumenta. Ela é linda. Ela é o amor da minha vida. No meio do deserto, uma flor: ela. Sou rica, tenho um tesouro, o maior de todos: o Amor. Não devia reclamar..., mas as contas estão vencendo. A perita do INSS, após meses de espera, me disse que " para esse tipo de problema não há benefício retroativo”. “Esse tipo de problema” foi uma tentativa de suicídio. Tenho transtorno bordeline. Eu quis levantar e socar a infeliz: não era justo. Há muita coisa injusta no mundo, aliás, como haver tanta gente morando nas barracas em forma de iglu que eu vejo pela janela do ônibus. Observo um homem sentado na grama, tomando um “corotinho”  entre amigos e rindo - ia mal na escola, mas era um bom menino; não nasceu para ser mendigo e havia trabalhado por muitos anos até ficar "velho" para a construção civil -. Então, vem um rapaz de bicicleta (maleta de I food nas costas, 12 horas de trabalho para ganhar uma merreca) e grita um grito injusto: “_Vai trabalhar, vagabundo!”. Um minuto antes aquele homem estava feliz, mas, agora, agonizava, pela flecha envenenada, lançada da boca daquele estranho que gritava como se o conhecesse. Sua cabeça rodava entre ontem e agora: “Vagabundo!...” (“Infelizmente, essa vaga já foi preenchida!”) “vagabundo” (“Infelizmente, precisa ter fundamental completo”).“Vai trabalhar!”. (“Infelizmente, a vaga é para até 25 anos). “Vagabundo!” (Infelizmente, precisa ter informática, senhor: o sistema da portaria é todo informatizado”). Diante da perita do INSS minha cabeça rodou também “Esse tipo de problema... (duas semanas dormindo no carro até não suportar mais) ... “Esse tipo de problema”... ( A UTI...  a demissão... ). “Esse tipo de problema”... ( minha chave na fechadura: o portão da casa da minha mãe que não abriu)... A perita não apanhou, nem o garoto do I food, mas vontade não faltou: não se deve provocar quem tem pouco a perder e tenho perdido tanto, ultimamente, que estou no limite entre o ser e o não ser. O desespero toma conta da gente.

      Anteontem fui ao mercado, trouxe dez coisinhas: paguei por oito. Nunca havia roubado antes. Será que vou roubar "coisinhas" quando me empregar? Será que vou querer me empregar se o crime surgir e pagar bem? Tenho medo do medo desaparecer... e de eu desaparecer também. Preciso escrever para me lembrar de quem sou e de quem eu quero ser: à noite, todos os becos são pardos, mas levam a destinos diferentes.  Jesus disse muitas coisas e não sei nenhuma delas de cor, mas me lembro da pedra não lançada em Madalena, dos pães e peixes para a multidão e da força de ser fiel e coerente mesmo quando ninguém compreende e é tão fácil trapacear. Nesse Natal vou pedir de presente para seguir, de mãos dadas, e ser resistente: cada escolha que a gente faz, é uma escolha que faz a gente.

INfluxo
Lígia Ciorlia Lima de Souza
Lígia Ciorlia Lima de Souza Seguir

Aluna de História e Letras Espanhol, professora de espanhol (atualmente, "disponível para o mercado de trabalho"), lésbica, recém casada, são bernardense, agora morando em São Paulo. Apaixonada por animais, música, arte e por minha mulher.

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