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Como ajudei meu filho autista a estudar durante a quarentena.

Como ajudei meu filho autista a estudar durante a quarentena.

2020 me fez refletir se eu conseguiria equilibrar meu discurso em prol da educação com a prática de um dia a dia que não cabe em 24 horas.

Quando chegamos ao mês de julho, achei que não chegaria em novembro com a mesma dedicação. Minhas forças estavam se esvaindo.

Algumas vezes meu corpo implorava para eu parar, outras vezes me jogava na cama e chorava.

Em altos picos de stress é difícil ser paciente com um menino que não sossega. Que não consegue ficar 5 minutos parado. Só em 2020 entendi porque minha mãe bateu com o copo do liquidificador na cabeça da minha irmã que não aprendia matemática.

Não foram poucas as vezes que o Miguel se irritava comigo. E eu com ele. E tb não poucas vezes que depois de discussões, nos abraçávamos. Ele pedindo perdão. E eu dizendo para ele que só exigia dele que não desistisse de seus sonhos, que para pilotar um avião, precisaria estudar.

Se manter as crianças típicas (aquelas que as pessoas entendem como “normais”) concentradas foi difícil. Multipliquem as dificuldades quando pensarem nas crianças que tem mais dificuldades, como é o caso dos autistas.

E se o universo educacional não estava preparado para as aulas digitais. Alguém acha que houve tempo de se preparar para aulas digitais de crianças em inclusão? A reposta vocês têm.

Mas, tirando toadas as dificuldades que não se resumem na frase “Não foi nada fácil”, aqui em casa, a gente fez a sexta série novamente. Estudamos todos os assuntos. Apostilas, filmes, vídeos, tutorias...

Compreendemos desde o início das aulas em casa que a única forma de ajudar o Mi era estando com ele integralmente. Mostrando o quanto nosso discurso de valorização da educação era uma verdade.

Tentamos criar atmosferas de valorização para todas as disciplinas. Relacionando o que ele estudava com o que acontece na vida da gente.

Recentemente estávamos assistindo 300. E ele vendo o rei Leônidas sendo separado da mãe perguntou.

“Por que ele tem que deixar a mãe dele”?

Eu respondi: Lembra quando estudamos que os meninos espartanos começavam a ser preparados para se tornarem soldados desde os 7 anos?

Ele: "Lembro".

Eu: Pois é, a separação está acontecendo porque chegou a hora dele se tornar um soldado.

Essa história de Esparta me fez lembrar que no terceiro trimestre quando ele estudou Esparta, passei alguns sábados vendo vários materiais diferentes, absorvendo a história de forma que pudesse contar a história para ele de uma maneira envolvente. Cada disciplina exigiu criar uma estratégia diferente. Pensando sempre como fazer para ele não achar tudo muito chato.

Ele tinha muita preguiça de fazer as aulas de educação física e não poucas vezes lá estava eu, fazendo exercícios com ele. As aulas acabaram e continuamos a fazer exercícios juntos.

Em outras disciplinas talvez se escolhesse obrigá-lo a decorar o assunto apenas para fazer provas. Não teria me desgastado tanto. Mas, aproveitei o ano, para conhecer mais meu filho. Para entender melhor como posso ajudá-lo. E principalmente para apoiá-lo na construção de seus sonhos. Para estimulá-lo a não desistir e a fortalecer nele o sentimento de quão bom é aprender.

Por fim, estamos em dezembro. Ele passou de ano muito bem. Está feliz com seu desempenho. Por não ter reprovado em nenhuma disciplina. Como aluno sai de 2020 certo de que Educação Física, Matemática ou Geografia...todas tem muito valor. E que ele só tem a ganhar se souber aproveitar o privilégio de poder estudar em uma país que a educação ainda não é uma prioridade, na prática.

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