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CARTA AO SECRETÁRIO DE URBANISMO DA CIDADE DE SÃO PAULO

Cassiano Ricardo Martines Bovo
jan. 18 - 2 min de leitura
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São Paulo, 25 de janeiro de 2050.

Quem vos fala é alguém que já morou em diferentes casas na cidade de São Paulo e que teve a possibilidade de ver quarteirões inteiros com esse tipo de habitação. Casas hoje, praticamente só as que são “expulsas” e segregadas (e sob vigilância das polícias) nas regiões suburbanas, geralmente de alvenaria, erraticamente amontoadas, espremendo-se; estão mais para favelas disfarçadas do que para moradias decentes. 

Nem mesmo Pacaembu, Jardins América e Europa, Alto de Pinheiros, que sempre foram nichos residenciais “protegidos”, escaparam da vertiginosa sanha das construtoras!  

Claro que sei que isso pouco importa perante o progresso gerado pela construção civil, que faz erguer prédios mais prédios, e a consequente riqueza, geração de empregos e arrecadação de impostos. E o estilo cidade-selva de concreto e vidro, com seus arrojados e suntuosos designs, vem ganhando corações e mentes dos paulistanos.

E adoram a vida em condomínios-fortificações de prédios, com seu dinamismo próprio de microeconomias repletas de lojas, serviços em geral; um tipo de sociabilidade que isola seus moradores da “verdadeira” cidade.

Ah, mas as construtoras fazem muito mais que erguer prédios: contribuem (ou são obrigadas a) por meio de compensações ambientais, plantam árvores, criam sistemas de reciclagem e se gabam das certificações mais certificações que vão obtendo.  

O que se costuma fazer com algo em extinção? Se procura preservar, ao menos é o que sempre vi tentarem fazer. Se ainda há solitárias casas-sobreviventes, suplico à Vossa Excelência – no embalo do aniversário da cidade - que se encontre uma maneira de preservá-las para que tenhamos exemplares do que já foi a cidade de São Paulo algum dia...A preservação “das espécies” não deveria estar acima dos interesses econômicos e da insensibilidade dos paulistanos? Seria a “última” salvação perante qualquer argumento. Antes que não saibamos mais o que seja uma casa....

Carta publicada originalmente In "Cartas para o futuro", organização de Olga Yamashiro e Ovídio Poli Junior, pelo Selo Off Flip, em 2022, na pág. 74. 


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