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Cancelado

Cancelado

No universo virtual, memes e mais memes surgem em velocidade exponencial, tanto é que nem sempre dá tempo de acompanhá-los. Quando não consegue compreender alguma expressão lida na internet, Chico sente-se desatualizado. Mas ele não liga tanto para isso, pois está cansado de se atualizar. Na verdade, Chico está cansado de muitas outras coisas. Parece-me que até mesmo da vida.

Em certo tempo, o homem de 37 anos, enclausurado em sua quitinete de 35 metros quadrados, testemunhou o surgimento do termo CANCELADO. Fulano de tal, célebre na internet — acho que digital influencer —, dizia ter sido cancelado. Outros disseram o mesmo. Chico não entendeu bulhufas. Por mera preguiça, também não foi atrás de entender.

O tempo passou, e Chico permanecia trancado em seu diminuto imóvel. Não tinha muito o que fazer e também não queria se ocupar. Por ele, passava o dia e a noite na cama vendo as novelas da Rede Globo de Televisão. As mais antigas, pois elas causavam mais emoção ao homem saudosista. Talvez por serem mais bem escritas ou porque os atores atuavam melhor. Não sei dizer.

O problema é que Chico morava na maior cidade de um país chamado... Deixa pra lá. Tinha contas para pagar, a começar pelo aluguel. Havia ainda o pacote de internet, do qual o homem dependia, pois vivia de realizar pesquisas sobre coisas desinteressantes. Aliás, desinteressantérrimas, tanto é que para Chico aquilo não era trabalho, mas sim sessões de tortura. Todas as manhãs, ele rolava na cama, às vezes por mais de uma hora, já que não encontrava motivação para se levantar. Melhor era permanecer sobre o colchão.

Mas não tinha jeito. Como qualquer cidadão comum, era preciso trabalhar para pagar contas. Vidinha medíocre a de Chico. Por falar nisso, estava cada vez mais difícil quitar as despesas. Elas estavam mais altas, enquanto que o trabalho era escasso — Chico era autônomo, vivia do que produzia. Pouco mais de dez reais era o que o homem ganhava por hora de atividade. Duas horas de laboro dava para comprar um saco de cinco quilos de arroz, do mais barato.

Antes de ser pesquisador, Chico tentara ser muitas outras coisas. Desenhista, professor, jardineiro, pintor, palestrante, ator... Em todas as suas tentativas, ele fracassara. Acho que era por isso que o homem admirava tanto as pessoas que haviam se encontrado na vida. Observava jovens talentosos, no auge dos seus vinte e poucos anos, fazendo sucesso na carreira que escolheram seguir. Chico sequer era capaz de vender um picolé na praça nos dias mais intensos do verão.

Era de se estranhar o fato de ninguém levar o homem a sério. Não que fosse esse o desejo de Chico, mas em alguns momentos, sim, ele estava falando com seriedade. Quando pedia ao marceneiro o cálculo de um móvel para seu dormitório, por exemplo, era porque havia interesse em adquiri-lo, caso houvesse facilidades e o preço coubesse no orçamento. Mas passavam as semanas, e nada de resposta.

Aliás, Chico padecia de falta de respostas. Com o passar do tempo, descobriu que os silêncios também eram uma forma de dizer algo. Compreensível. Afinal, as pessoas eram ocupadas demais para dar atenção ao homem. Outra, o homem não tinha nada que oferecer às pessoas além de sua atenção. Atenção, como todos sabem, não paga contas. Chico concluiu que era um homem insosso, desinteressante, e o melhor que podia fazer era continuar só, apenas na companhia dos atores de televisão. Assim como o digital influencer, magoado por ter sido rejeitado pela audiência, ele permaneceria como sempre foi. Ou seja, cancelado.

INfluxo
Rômulo Martins
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Às vezes sou criança. Outras vezes, velho. Há momentos em que sou jovem, mas a realidade da vida me obriga a ser adulto. É asfixiante. Sou doce, cruel. Sou raso e profundo. Quando penso estar me encontrando, descubro estar perdido.

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