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Assista Cinema Nacional: Brasilianas (1945 - 1974) with English Subtitles

 

Desde o final do século XIX percebe-se no Brasil uma imensa necessidade de se compreender o país, mapear sua história, suas raízes. Porém, seria a partir do Modernismo dos anos 1920 que isso começaria a ganhar contornos mais definidos, e em 1930 passaria a ter apoio governamental. Como aponta Antonio Candido (1999), nessa época houve um grande avanço do ponto de vista do pensamento, acompanhado de uma politização (à esquerda ou à direita) dos intelectuais. Foi nesse movimento que se intensificaram os estudos sobre o passado do país, com pesquisas sobre o negro, as populações do campo, a imigração e o contato entre culturas, a partir da aplicação de modernas correntes da sociologia e da antropologia (Candido, 1999).

A indústria do livro também ganhou grande impulso, quando nasceram coleções especializadas em assuntos brasileiros, “num momento em que o país parecia analisar febrilmente o seu espírito e o seu corpo, em desenvolvimento rápido, para conhecer a sua verdadeira natureza e traçar os rumos do seu destino” (Candido, 1999, p. 79). Entre essas coleções estava a Brasiliana. Segundo Pedro Corrêa do Lago, quatro categorias gerais definem uma coleção desse tipo: obras de arte; livros e impressos; manuscritos; e cartografia (Lago, 2009). Os primeiros anos do século XX foram marcados por coleções do gênero em vários países americanos, como Estados Unidos, México, Argentina e Brasil que, depois dos estadunidenses, foi o país do continente que formou o maior número de acervos significativos sobre sua cultura nacional (Lago, 2009). Isso mostra, sobretudo a partir do nosso Modernismo, uma necessidade de se colecionar conhecimentos sobre o país.3

Segundo Heloisa Pontes (1998), baseada nos apontamentos de Antonio Candido, essa necessidade de sistematizar o conhecimento sobre o Brasil começou nos anos 1870, especialmente a partir da literatura, que seria a responsável por dar forma ao pensamento brasileiro. No começo do século XX, porém, a literatura começou a dividir espaço com a ciência, sobretudo após a publicação do livro Os sertões, de Euclides da Cunha, de 1902 (Pontes, 1998). Para Antonio Candido (1999), Euclides baseou seu livro nas correntes deterministas da época, que consideravam que os grupos sociais eram condicionados pelo meio físico, e sua escrita transformou a objetividade científica pretendida em testemunho e denúncia contra o exército de Canudos, de 1897.

Ao longo do tempo, a ciência foi se tornando o espaço de legitimidade dessa “identidade nacional”, marcada no Brasil em termos de diversidade. Cabia a esse conhecimento científico buscar elemento que fosse típico a ajudasse a forjar uma imagem do chamado “homem brasileiro”, algo que, do ponto de vista institucional, competiu inicialmente aos museus (Schwarcz, 2008).

No começo do século XX, grande parte do pensamento social se desenvolveu a partir da busca da identidade da nação que se queria construir. A ciência social produzida era farta e se materializou nos vários estudos brasileiros, muitos dos quais ajudaram a compor coleções como a Brasiliana, fundada em 1931 por Octalles Marcondes Ferreira, diretor e proprietário da Companhia Editora Nacional, e dirigida por Fernando de Azevedo, sendo “o maior empreendimento editorial destinado a reunir conhecimento sistemático sobre o Brasil, ainda hoje sem equivalente na história da edição do país” (Dutra, 2006, p. 301). A coleção era uma das subséries da Biblioteca Pedagógica Brasileira e continha 387 volumes, acrescidos de 26 da chamada Série Grande Formato e dois da Edição Especial. Sendo uma das primeiras manifestações do interesse pela história nacional após a Revolução de 1930 (Hallewell, 2005), a Coleção Brasiliana nascia com o propósito de mapear o país com trabalhos que oferecessem uma “completude do conhecimento”, e, em tal pretensão, foi bem recebida pelos intelectuais e homens públicos (Dutra, 2006). Em um período em que se tentava forjar uma nação moderna, uma coleção como essa poderia fornecer um conhecimento amplo sobre o país, tendo como fim último a elaboração de uma consciência nacional:

Esses vários estudos, legitimados pela convocação e a chancela da ciência, visam difundir um padrão de conhecimento e compreensão sobre o Brasil, e diagnósticos precisos sobre a realidade brasileira naqueles anos 30, de forma a definir um perfil da nacionalidade e a suportar projetos de políticas públicas. (Dutra, 2006, p. 308)

Certamente essa forma de divulgação do conhecimento (a partir do pensamento verbal) é importante e característica de um “modo de vida” coletivo, uma “estrutura de sentimento” de uma sociedade particular (Williams, 2003). Mas se o interesse era atingir um número maior de pessoas, de modo a promover um sentimento de unidade, ou seja, forjar um nacionalismo, outras estratégias deveriam ser empregadas, como o cinema (nesse caso, uma manifestação do pensamento plástico ou visual). É nesse ponto que nos interessa a série fílmica Brasilianas, dirigida por Humberto Mauro entre 1945 e 1956 no Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince). A partir da análise de um dos filmes dessa série, chamado Cantos de Trabalho (1955), este artigo discutirá o papel do cinema educativo como um dos caminhos na construção da moderna nação brasileira, especialmente a partir do Estado Novo.

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