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As Janelas da Quarentena

As Janelas da Quarentena

Durante a manhã / dia:

Pelas da sala passam carros, poucos ônibus cheios e pessoas andando despreocupadas (!!??).

Pelas do quarto passam moradores de rua, pessoas chegando ao hospital mais próximo e vizinhos subitamente saudáveis caminhando no play.

Pelas do banheiro passam gaivotas desorientadas.

Pelas da televisão passam (com o devido "delay" - que é quando os repórteres aguardam o retorno balançando a cabeça como aqueles bonequinhos antigos dos carros) as atualizações de tragédias, estatísticas e recomendações repetitivas. Além das dezenas de infectologistas - que brotam como besouros depois da chuva - dizendo as mesmas coisas com o mesmo tom grave e doutoral.

E, claro, filmes e jogos de futebol também já exaustivamente apresentados.

Pelas do rádio, palpitantes notícias sobre a situação do tráfego e as corriqueiras notícias de assassinatos, roubos e afins.

Pelas da internet, centenas de mensagens sem sentido, imagens e publicações desconexas, falsas ou, pior, de apoiadores do humano(?) que atualmente ocupa o Planalto.

Pelas do whatsapp passam centenas de irritantes "bons dias", frases piegas de ajuda "psicológica" e, ainda bem, ainda que poucas, piadas engraçadas.

Pelas do telefone, incontáveis ligações de telemarketing.

Durante a tarde / noite:

Pelas da sala passam carros, poucos ônibus vazios e bêbados gritando impropérios contra sabe-se lá quem.

Pelas do quarto passam cachorros, gatos, morcegos, corujas e sabe-se lá mais o que.

Pelas do banheiro passam ambulâncias UÓ-UÓ-Uó-uó-uó-uóuóuóuóuó...

Pelas da televisão passam as "últimas" notícias cujas, de novidade, só trazem o tom já enfadado dos apresentadores.

Pelas do rádio, os "últimos" comentários, análises dos eternos especialistas e o falatório repetitivo do dia.

Pelas da internet, anúncios os mais descabidos: "Vai viajar! Compre agora sua passagem com desconto!", além de incontáveis "Baixe agora o app e compre, compre, compre!".

Pelas do whatsapp, poucas. As pessoas, espero, devem estar ocupadas com panelaços e/ou, na melhor das hipóteses, buscando algo de mais excitante para fazer. Ou não...

Pelas do telefone, surpreendentes bons momentos: amigos que estavam sumidos ligam pra conversar fiado.

E, pelos sons que chegam tarde da noite, constatamos que os lixeiros continuam seu trabalho.

Aí, fica a reflexão: temos visto, a torto e a direito, homenagens mais do que justas aos profissionais da saúde que estão no âmago da batalha, aos colaboradores que estão em esforço constante para diminuir os impactos nas populações carentes, etc, etc.

Mas... E os lixeiros? E se eles pararem? Hein? Hein?

Deixo então a minha singela homenagem a esses profissionais que, não importa a situação, estão aí fazendo seu melhor e, imprecionante (como diria aquele humano[?] que ocupava a pasta da educassão), permanecem de bom humor correndo pra lá e pra cá, limpando os podres de nossas ruas e de nossas vidinhas.

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