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Alma pálida

Alma pálida

Sempre me senti deslocado dos lugares. Antes, achava que tinha a ver com a cidadela onde nasci e vivi até a minha juventude, pois lá era tudo tão igual. Mas pelo menos eu tomava sol todos os dias, no quintal.

Hoje vivo na maior cidade do Brasil e não tenho quintal. Tomo sol da janela do meu studio de trinta e cinco metros quadrados. O astro-rei ilumina meu lar à tarde, às duas. Fica nele por pouco tempo, até se pôr.

Já passei toda uma semana — ou mais — sem tomar sol. É ruim porque a pele fica feia, amarelada. Mas pior que isso são os efeitos no espírito. A falta de sol empalidece a alma e vai matando-a aos poucos. Se cada dia de vida é um dia a menos, deveríamos viver os instantes que nos restam com mais intensidade em vez de esmorecermos a cada retorno dos sóis e das luas. Concorda?

Venho pensando nisso. É que mesmo vivendo em uma cidade grande, continuo-me deslocado, tal qual me sentia na cidadela. Preciso mudar de vida. Ou melhor, preciso mudar minha vida. Já não tenho a ilusão de que trocar São Paulo por outra cidade, mais acalorada, restauraria minha pálida alma.

Pensando bem, talvez eu devesse mudar de país. Um apartamento charmoso, na mais charmosa e turística de todas as cidades, Paris. Um buldogue francês, de pelos negros, chamado Alfred. Vejo-me passeando com ele pelas margens do rio Sena. O cãozinho é tão fofo e simpático que as pessoas param para cumprimentá-lo e até mesmo tirar fotos dele. Meu francês já está bem praticado. Minha alma cheia de cor. Será?

A realidade, na verdade, é bem outra. Só não fui convidado a me retirar do meu studio, em São Paulo, porque estou recebendo auxílio do governo. Com a ajuda, pago noventa por cento do aluguel. Aliás, faço malabarismos para controlar meu orçamento. Alfred não poderia viver aqui, pois não haveria espaço adequado para ele. Não existe sequer varanda. Ademais, não existiria recursos para a ração e o plano de saúde do meu cãozinho.

Quem sabe, então, Minas Gerais. São João del-Rei. Certa vez, vi um vídeo de uma maria-fumaça contornando a cidade. Achei tão encantador. Ela passou em frente a uma casinha simples, feita de madeira. Imagino que no interior daquele lar havia fogão à lenha. Eu poderia cozinhar meus próprios alimentos, colhidos da minha horta, situada no meu quintal, no qual me banho de sol todas as manhãs. Quem sabe.

INfluxo
Rômulo Martins
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Às vezes sou criança. Outras vezes, velho. Há momentos em que sou jovem, mas a realidade da vida me obriga a ser adulto. É asfixiante. Sou doce, cruel. Sou raso e profundo. Quando penso estar me encontrando, descubro estar perdido.

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