Manhã de uma típica quinta feira. Entrei num vagão do Metrô da cidade de São Paulo para ir até a Praça da Sé. Era umas dez horas, o horário do rush se fora; todos os bancos ocupados e não tantas pessoas de pé. Como era esperado, quase todo mundo ali olhava para o celular; tinha gente conversando e dormindo, também.
Na parada de uma estação, um jovem de longos cabelos negros, violão na mão, adentra o vagão e se posta de costas para a porta, ao lado do banco para uma pessoa; se abaixa e coloca uma mochila bem simples no chão, totalmente aberta, para entrar o dinheiro. O jovem começa a tocar o violão e cantar a música “Nos bailes da vida”, de Milton Nascimento.
“Com a roupa encharcada, a alma Repleta de chão Todo artista tem de ir aonde o povo está Se foi assim, assim será Cantando me disfarço e não me canso De viver nem de cantar”.
Justamente no banco de uma pessoa, bem ao lado do artista, estava sentado um senhor com cara de poucos amigos, devia ter por volta de 60 anos. Diz: Para com isso. O rapaz não liga e continua a cantar e a tocar. O homem insiste, agora grita: Para com isso. O rapaz continua não ligando, faz de conta que não é com ele. O homem fica possesso e insiste: Para com isso.
Os passageiros do vagão se entreolham.
Como que vencido pelo cansaço, o rapaz retruca: É uma falta de respeito interromper quem está trabalhando.
O homem, bem raivoso, fala alto: Você não pode fazer isso no vagão do Metrô.
Deixe eu trabalhar, não estou fazendo mal a ninguém, diz o rapaz.
O homem continua: Para com isso.
Então algumas pessoas no vagão falam alto para o homem ouvir: Deixa o rapaz tocar a música dele, é sua arte.
O homem: Eu não aceito, para com isso.
Na outra ponta do vagão um rapaz chama: Vem aqui tocar aqui para a gente. Será um prazer. E outras pessoas reforçaram: Sim, venha aqui também.
O rapaz pegou a mochila e foi para outra ponta, deixando o senhor, emburrado, falando sozinho. Tocou e cantou para o pessoal. Raul Seixas, Tim Maia, Maria Bethânia, Gilberto Gil e mais. E ele foi tocando e cantando de uma ponta a outra, ficou no vagão por várias estações. Os passageiros pedindo para ele ficar e o dinheiro ia entrando sem parar na sua mochila; via-se até notas mais graúdas, dez, vinte reais.
No final das contas o rapaz nunca ganhara tanto dinheiro, tocando e cantando.
Publicado originalmente na III Antologia Taquaranense de Escritores e Convidados, organizada por Wal Ferry, Editora Performance, Arapiraca, Fevereiro de 2025, págs. 124 e 125.






