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A Revalorização das Inutilidades Cotidianas

A Revalorização das Inutilidades Cotidianas
Dennis De Oliveira Santos
fev. 22 - 3 min de leitura
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Após um dia exaustivo de trabalho, me vejo mergulhado em reflexões acerca do valor das nossas ações, do mundo que nos cerca e das pessoas com quem convivemos. Surge, então, um sentimento perturbador de futilidade.

Reflito sobre o valor das atividades rotineiras, muitas vezes realizadas mais por obrigação social do que por vontade própria, que pouco ou nada acrescentam ao nosso contentamento. Atividades como despertar cedo, seguir horários meticulosamente definidos pelos relógios, agora nos smartphones, enfrentar ônibus lotados, conviver com pessoas de todas as origens sociais e perfis psicológicos, frequentemente mal-humoradas, e chegar ao ofício para executar uma dança de equilíbrio social, especialmente com chefes nada empáticos.

O tempo passa, consumido por uma jornada de 40 horas semanais, sem espaço para pequenos prazeres como pagar saborear um vinho, ouvir uma discografia, ir a um restaurante ou simplesmente descansar. A necessidade de manter uma postura socialmente aceitável, mesmo diante de pessoas pouco agradáveis, ao mesmo tempo em que se busca cuidar do próprio corpo, frequentemente negligenciado em favor de refeições rápidas e inadequadas comidas rapidamente na rua, e a luta para encontrar tempo para exercícios físicos e uma alimentação saudável, tornam-se tarefas hercúleas.

Enquanto isso, em contraponto, testemunhamos a podre burguesia, detentora dos meios de produção, esbanjando riquezas obtidas às custas do suor de trabalhadores como eu, que se desdobram sob a constante ameaça do desemprego, para receber um salário muitas vezes insuficiente para pagar as contas do mês. As dívidas se acumulam, as despesas são parceladas nos cartões de crédito, e os raros momentos de satisfação plena, longe desse exaustivo cotidiano parecem restritos aos curtos dias de férias.

Essa rotina laboral impõe uma reflexão sobre a inutilidade de muitas de nossas atividades diárias. Surge, então, a necessidade de encontrar um sentido próprio para nossas ações, de reavaliar essas inutilidades a partir das experiências genuínas que enriquecem nossa vida.

Pessoalmente, encontro em momentos compartilhados com a família, do cuidado oferecido à minha mãe enferma, dos finais de semana tranquilos, da apreciação de um bom vinho, do prazer de assistir a uma partida de futebol, da companhia da mulher amada. Até mesmo no trabalho, mesmo sendo um ofício maçante, busco atribuir um novo significado. Como professor, vejo meu papel não apenas em ensinar, mas em preparar os jovens para a vida, educando-os sobre cidadania, sobre valores básicos para viverem em coletividade, buscando deixar uma marca útil em suas vidas.

Assim, mesmo diante da aparente inutilidade do trabalho, é essencial que reavaliemos e encontremos nossos próprios significados para tornar essa carga um pouco mais leve. É como se, a cada dia, carregássemos uma pesada pedra montanha acima, sabendo que ela rolaria montanha abaixo ao fim do dia, para então recomeçarmos no dia seguinte, e assim sucessivamente, semana após semana, nas 40 horas trabalhadas.

20.02.2024



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