Era noite quando descobri minha tristeza
O frio das ruas, as luzes dos postes acesas
As calçadas ricas em HIV, miséria e odor
Eram dadas as milhões de almas apagadas
Que reviravam os restos das madrugadas
A procura de uma prova concreta de amor
Encontrávamos veneno, sempre veneno
Não tínhamos nada, mas drogas, pelo menos
Nos davam a falsa sensação de imortalidade
Derrotávamos os nossos moinhos de vento!
Depois, acordávamos sobre nossos excrementos.
Éramos nós, sempre os mesmos bêbados da cidade
O dia era um dragão que me queimava a retina
Um monstro velho que me violentava ainda menina
Uma madre superiora, que me torturava o desvio.
E por mais que o sol derretesse toda minha essência
E me queimasse os sonhos com tamanha violência
A sua imensidão de calor ainda assim me provocava frio
A merda do carro de Apolo durava uma eternidade
Para atravessar os céus até o outro canto da cidade
Eu ansiava a noite como um moribundo anseia a morte
E por mais que o dia me espremesse essa vida amargurada
Eu sempre, sempre renascia de dentro de uma privada
Como uma fênix do esgoto, mais bêbada e mais forte
E junto com tantos outros Ninguéns eu vomitava
Tudo que me fazia bem e tudo que me envenenava
Transavam a noite os poetas, os filósofos, as putas
Todos bêbados e insanos lambuzando-se em matilhas
E a marginalia era o nosso país das maravilhas
E a Rainha Branca era a rainha de todas as prostitutas
Mas o dia, o dia se aproximaria rapidamente
E de novo a luz do sol me deixaria doente
Numa calçada dessas onde cospem homens de bem.
Que eu morra então na mais longa das madrugadas
E que meu epitáfio seja gravado em todas as calçadas
“O sol nasce pra todos, mas a noite não é de Ninguém”