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A Literatura me Salvou Várias Vezes

A Literatura me Salvou Várias Vezes
Claudia Felix de Almeida
dez. 1 - 10 min de leitura
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Acredito que a Literatura nasceu comigo, tipo uma irmã gêmea. Meus pais sempre gostaram muito de leitura, música, dança e cinema, o que foi uma sorte para mim. Eu ainda estava na barriga de minha mãe quando ela começou a ler para mim. Eu ouvia as histórinhas antes de dormir desde quando vim ao mundo. 

Fui para a escolinha com dois anos de idade e fui conhecendo livros de todas as maneiras para cada fase do meu crescimento. Aos cinco anos eu já era alfabetizada, mas tive que, por força da lei, fazer a pré-escola duas vezes para, então, com seis anos ir para o antigo primário.

Nessa época eu já lia gibis. Turma da Mônica, Luluzinha e Bolinha, Pica-Pau, Pantera Cor-de-Rosa... Eram tantos que, quando cheguei a 2000 gibis, vendi minha coleção para um sebo. Passei aos Contos-de-fada, à Bíblia ilustrada e outros livros que eram adequados à minha idade e que eu conseguia ler.

Tive uma infância turbulenta. Não me faltava nada financeiramente. No entanto, eu vivia sozinha com minha mãe desde os oito meses de vida porque meus pais se separaram. Mesmo assim, meu pai era presente e ambos eram bem rigorosos.

Ninguém percebia nada naquela época e, até hoje, alguns fingem não saber quem eu realmente sou. A minha saúde não era muito boa, eu não comia muita coisa porque me fazia mal e eu não tinha muitos amigos e, os que eu tinha, minha mãe não deixava que os trouxesse em casa.

Com dez anos ganhei um irmão do segundo casamento de minha mãe e, também, vivia desmaiando sem motivo aparente. Como não se encontrava uma doença real para ser a causa dos meus males, só podia ser para chamar a atenção dos outros. Até alguns médicos falavam isso.

Como ninguém me entendia, eu passava horas no meu quarto inventando brincadeiras onde minhas bonecas substituíam crianças. Ninguém precisava mandar eu estudar porque eu tinha prazer em fazer isso. Quando não estava ocupada com uma dessas coisas, eu lia.

No final da terceira série, minha professora de Português foi até minha casa e me deu um livro de presente: "A Perobeira". Com o livro veio a recomendação à minha mãe que me colocasse numa escola mais exigente para que meu potencial fosse explorado.

Fora a pré-escola, sempre estudei em escola pública mas, na minha época, dei sorte de estudar em excelentes escolas com professores geniais. Com a mudança para outra escola, passei a ler e escrever muito mais.

Enquanto na escola eu conhecia Monteiro Lobato e o Sítio do Pica-pau Amarelo, em casa conheci "O Pequeno Príncipe". Um livro que me fez sorrir e chorar. As conclusões sobre os adultos que o Pequeno Príncipe tinha pareciam muito com as minhas e entendi muito bem como foi que a serpente o ajudou a voltar para seu planeta.

Eu queria ter um planeta para onde voltar assim como ele... Sempre releio este livro e encontro mais algum ensinamento. É um livro atemporal.

Minha mãe me achava muito chorona. Ela me chamava de "manteiga derretida" e a frase "engole o choro" foi a que mais ouvi na minha vida, de diferentes maneiras algumas vezes. Meu choro a incomodava, mas ela não sabia muito lidar com isso já que me deu o livro "Meu Pé de Laranja Lima". Como não se emocionar com esse livro? Eu sofri lendo esse maravilhoso livro!

Na escola, conheci a Coleção Vagalume. Líamos, no mínimo, quatro livros por ano na minha escola, isso até a sexta série. Enquanto isso, minha saúde continuava um problema com um agravante: as dores.

Então, eu tomava remédio, lia e escrevia. Aos quatorze anos, ficamos pobres por culpa do meu padrasto. Meu irmão tinha apenas quatro anos. Minha mãe não trabalhava havia anos! Na verdade, desde o primeiro casamento. Isso era muito comum na época e, quando alguma mulher se "desquitava" já era um escândalo! Quando se divorciava então...

Naquela época as mulheres ainda podiam receber pensões alimentícias de ex-maridos, não só os filhos. No entanto, dependendo de quanto recebia, não dava para viver só com isso. Tínhamos que pagar aluguel, as despesas da casa, comida, remédios, médicos porque ainda não havia o SUS (Sistema Único de Saúde).

Comecei a dar aulas particulares para crianças do primário e dos primeiros anos do antigo ginásio. Também não existia o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) nem programa Jovem Aprendiz. Era comum crianças trabalharem como gente grande, só precisava que houvesse autorização dos pais ou responsável.

Aos quinze anos fui para meu primeiro emprego com carteira assinada. Estudar e trabalhar não é fácil... Nessa época já tinha conhecido "Fernão Capelo Gaivota". Quanta mensagem há nesse livro! Outro que é atemporal.

Já tinha acabado o ginásio. Meu professor de português pediu três das minhas redações para ele mostrar de exemplo na faculdade onde dava aula. Ser elogiada por ele não era para qualquer um.

No primeiro ano do antigo Colegial estudei com outro professor maravilhoso. Recebi muitos elogios e foi nessa época que comecei a escrever em meus cadernos algumas reflexões e poesias. Não tinha um diário como a maioria dos adolescentes porque minha mãe reviraria meu quarto para encontrá-lo. Por isso, coloquei todas as minhas emoções que não podia falar nos meus escritos.

Ninguém me incentiva a ser uma escritora, por isso eu não pensava nessa ideia. Eu tinha a literatura como minha melhor amiga. Além de escrever, li muitos livros, tanto na escola como os que eu adquiria ou emprestava. 

Durante um tempo, fui colecionadora de Agatha Christie. Era um desafio descobrir os criminosos antes do fim. Eu nunca conseguia e sempre tinha uma surpresa no final. Também tive que vender essa coleção para um sebo.

Cheguei a contar... Tive mais de mil livros comigo! Mas quando fiquei pobre, além de não ter mais lugar para guardar tantos livros, vendê-los me rendia um dinheirinho.

Aos dezessete anos encontrei um médico que aliviou as minhas dores o que, para mim, já era muito. Foi o primeiro a dizer à minha mãe que tudo que eu sentia era porque meu sistema nervoso não ia nada bem. Eu tinha doenças psicossomáticas. Isso não mudou muita coisa.

Trabalhava para ajudar na maioria das despesas de casa. Passei a estudar num colégio técnico onde fiz o Ensino Médio integrado com o técnico em Assistente Administrativo. Naquela época, ter o ensino médio e mais o técnico era luxo.

Também pagava minha escola porque foi o lugar que ficou melhor para mim. Sempre fui boa aluna, mas em algumas matérias tinha só a nota média para passar porque estudar tanto ficou muito difícil para mim. Muitas vezes chegava em casa e já ia dormir de cansaço e, no dia, seguinta, tinha que trabalhar.

Fui a psicólogos que não resolveram muita coisa. Eu continuava escrevendo e já tinha 5 cadernos com textos. Fiquei alguns anos sem escrever, mas nunca joguei nada fora. Continuei lendo porque os amigos eram escassos. Na verdade, eu só tinha uma grande amiga e ela veio a falecer com vinte e quatro anos.

Tudo foi complicado na minha vida. A saúde, o relacionamento familiar, os dois casamentos, qualquer relacionamento amoroso, o relacionamento com os filhos, a falta de amigos e de lazer.

Um dia conto tudo isso. O importante é que passei a ir num psiquiatra e continuo nele. Tenho depressão recorrente junto com períodos de ansiedade. Não consigo uma psicóloga gratuita, então vivo à base de remédios.

Eu não sei dizer que fui ou sou feliz. A frase onde mostro que estou mal é "Eu queria sumir!". Não consegui até hoje. Fora os remédios, a literatura salvou minha vida várias vezes porque é minha companhia, é meu lazer, é tudo que tenho.

A literatura nos faz viajar, conhecer lugares, sonhar... Mas ela tem uma importância muito maior do que ser minha melhor amiga. Ela está totalmente ligada à História. Cada período literário carrega consigo o que estava acontecendo naquela época. Mesmo os autores que não falam nada sobre política, história, costumes diretamente, têm seu estilo literário impregnado disso tudo.

Eu me tornei uma escritora melhor porque quem lê tem mais vocabulário, têm mais correção ao escrever. Também me tornei Professora de Letras e mostrei a muitos alunos que nosso idioma não é um "bicho de sete cabeças". Ensinei quem não gostava de Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa e tantos outros que há muitos livros de vários estilos e temas que eles podem ler, contanto que leiam. Ensinei técnicas de Redação para aqueles que mal conseguiam escrever dez linhas de um texto.

Atualmente não estou lecionando por causa de minha saúde que piorou muito porque atacou praticamente meu corpo todo. Contudo no ano de 2019 dei o primeiro passo para ser uma escritora, na época como poetisa e, atualmente, digo que essa é minha profissão mesmo ainda não tenho ganhado nada financeiro com ela.

No entanto, ganho muito mais. Voltei para Faculdade, estudo literatura para me atualizar com estilos e gêneros literários que foram aparecendo nestes últimos anos. Arrisco-me a escrever em vários estilos, tanto em prosa quanto versos.

E, toda vez que eu digo "Não aguento mais!", sento para escrever, leio alguma coisa, estudo um pouco mais porque tenho a literatura comigo todos os dias. Ela me salvou da morte várias vezes e continua salvando. Isso é algo que posso dizer que mais feliz.




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