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À ESPERA DE UM AMANHÃ

À ESPERA DE UM AMANHÃ
Edih Longo
dez. 26 - 25 min de leitura
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À ESPERA DE UM AMANHÃ

EDIH LONGO

Modalidade: CONTO

           

            Acordei no meio da noite preocupada com a tosse de papai. Seca e intermitente. Levantei-me e para não os acordar, não acendi a luz, e fui tateando pela sala, tropeçando em algumas caixas da mudança que ainda não tínhamos aberto. Chegamos em Macau há três dias e somente hoje nossa mudança foi liberada.  Poderíamos ficar mais um dia no Hotel, mas mamãe queria arrumar nossa casa, para que não nos sentíssemos tão fora do nosso País.  Além da cultura, do povo, temos a barreira do Mandarim. Meus pais já se inscreveram em um curso. E, claro, preciso estudar também, pois é a língua que a maioria fala. Papai considerou ótimo, pois segundo ele, essa será a língua do futuro. A língua portuguesa é pouco falada, apesar dos 450 anos do domínio de Portugal, mas o povo se apega mais à China e, finalmente, em 1980, Macau foi devolvida aos chineses.

            Levei um chá para o papai e percebi que estava febril. Coloquei uma toalha molhada no seu rosto. Ele estava ofegante e tremendo muito, reclamando das dores no corpo. Acordei minha mãe, que imediatamente, ligou para o Sr. Robson, amigo de papai, para indicar um hospital próximo. Ele pediu que esperássemos que iria com ela. Eram quatro horas da madrugada. Eu não quis ficar sozinha e me levaram. Chegando ao hospital, meu pai foi logo levado para a UTI, onde precisou ser entubado, pois a respiração estava muito fraca.  Ficamos apavoradas. Mamãe sempre foi uma mulher forte, mas quando voltou da sala do médico estava trêmula e pálida.

            —O médico me disse que é uma gripe muito forte. Há outros casos desde a semana passada e parece uma epidemia semelhante à H1M1. Disse que nos vacinamos antes de vir também contra a febre amarela. Ele ficou em dúvida sobre qual das duas provocou esses sintomas, mas descarta a possibilidade de serem ambas.

            —Mamãe, mas por que nós não tivemos esta reação?

—Não sei, mas o médico pediu que ficássemos em observação. Qualquer sintoma de febre, tosse seca, dores no corpo devemos procurar o Hospital. Esses são os primeiros sintomas observados em todos os casos. Graças a Deus o médico fala o português. Que complicação!

            O médico disse que podíamos ir para casa sossegadas que meu pai tem que ficar para que vários exames sejam feitos. Aproveitamos a carona do Sr. Robson, eles trabalharão na filial do escritório de advocacia, recentemente aberto em Macau para dar suporte aos diversos clientes e facilitar a transação mercantil entre os dois países. Viemos com tantos planos, com tanta expectativa! Hoje iríamos ao Clube que os funcionários do novo escritório frequentarão. Somos dez famílias brasileiras. Todos têm filhos pequenos. Sou a mais velha do grupo de filhos.          Vim apenas para conhecer a cidade e ajudá-los na mudança. Volto ao Brasil em dez dias e fico morando com minha avó e meu tio, até completar os dezoito anos e poder morar sozinha. Faço o último ano do Colegial e frequento um curso complementar para tentar a faculdade. Claro que penso apenas na USP. Meus pais estudaram no Largo São Francisco.   Minha mãe, assim que conseguirmos uma ajudante doméstica, começará a trabalhar no mesmo escritório. Mas, para a decepção de ambos, minha opção é a Medicina. E minha especialidade será pediatria. Amo crianças. Adoraria ter um irmão ou irmã, mas meus pais acham que o mundo já está demais habitado. Haja vista a própria China. Faltam ruas para tanta gente.

            Fomos ao Centro de Compras – os portugueses não admitem o uso de estrangeirismo – perto do Hotel, e levamos quase meia hora para chegar, apenas nos desviando de gente nas calçadas. Lá dentro parecia um formigueiro quando é desmantelado. Gente correndo para todos os lados. E eles têm o hábito de quase correr ao invés de andar. Parece que a vida os atropela. Passamos a manhã, organizando os lugares onde colocaríamos apenas o necessário. Tivemos que vender metade dos móveis, pois morávamos em São Paulo em um de 400 metros quadrados e esse é de 75, dois dormitórios, uma sala em L, uma cozinha pequena, mas bem-dotada de aparelhos domésticos. Tem uma sacada na sala de onde se vê o Rio das Pérolas.

            A movimentação dos barcos com sua linda ponte que liga Macau a Hong Kong. Não vejo a hora de explorar cada cantinho da cidade. Meu pai já me deu no aeroporto algumas patacas (a moeda local) e reservou uma montanha para ele e a mamãe se fartarem nos cassinos. Adoram jogar e são muito divertidos. Parecem recém-casados e, no entanto, já faz vinte e cinco anos que estão juntos. Enquanto não tinham filhos, rodaram o mundo. Quando eu nasci, (meio que forçada, acho) eles me levavam a todos os lugares. Estava listando o que gostaria de fazer nos próximos dez dias quando percebi que minha mãe estava muito quieta. Fui ao seu quarto e ela estava deitada, o que me inquietou muito. Jamais ela se deitava durante o dia. Devia estar cansada e apenas a cobri. Preparei nosso almoço. Fiz tudo o que ela gosta.

            Adoro cozinhar e gosto de surpreender meus pais. Antes de pôr a mesa e a chamar, liguei ao Hospital para saber notícias de meu pai. Ele já está lá há cinco dias e quando vamos presencialmente, não podemos vê-lo. Isso nos deixa angustiadas. Mas, todos são gentis e nos colocam a par dos procedimentos tomados. Sempre ao final do dia, o médico, antes de sair do plantão, liga-nos dando um relatório. Na verdade, a classe médica não sabe ao certo o que está acontecendo. Outros doentes deram entrada ao Hospital com os mesmos sintomas. Os leitos da UTI estão lotados e precisam ser mantidos em aparelhos respiratórios. O médico nos aconselha o uso de máscara descartável quando formos à rua e, seria preferível que ficássemos isoladas, principalmente no começo quando pouco se sabe a respeito das consequências. Houve alguns casos de óbito.

Fui acordar a mamãe e levei o maior susto, pois ela estava ardendo em febre. Telefonei novamente para falar com o médico. Expliquei que ela tinha reclamado muito de dor de cabeça e dores nas costas.  Ele achou melhor a gente ir ao Hospital para ele a examinar, pois os sintomas se assemelham com os casos já citados. Ajudei a minha mãe a se vestir, pois não tinha forças. Reclamou que sentia um cansaço imensurável. Quis que ela comesse alguma coisa, mas disse não sentir fome e tudo o que come não tem gosto. Também estava com dificuldade para respirar. Liguei novamente ao Hospital e pedi que mandassem uma ambulância. Ela precisaria de um aparelho respiratório. Liguei outra vez para o médico de papai e ele me aconselhou a procurar ajuda em outro Hospital. Ele mesmo ligaria para os que conhece e se tiver lugar na UTI, depois ele entra em contato por celular, dando as instruções para o motorista.

A questão principal agora tornou-se a necessidade dos aparelhos, pois o paciente não consegue respirar sozinho. Eu estava desnorteada. E agora? Mamãe não poderia ficar com meu pai. Segurei-me para não chorar, mas por dentro estava sufocando. Com muito esforço, mamãe se apoiou em mim. Minha situação era desesperadora. Não sabia com quem falar. Não sabia quais providências práticas tomar. Sentia-me uma personagem de um filme de terror. A cidade que causara uma impressão tão maravilhosa quando cheguei, de repente, ficou horrível.

Como vou me dividir entre os dois se meu pai não sair logo? Fomos para um Hospital do outro lado da cidade. No caminho, entrei em contato com o Sr. Robson. Ele também acompanhava o caso de meu pai. Ficou pasmo. Pediu para o deixar informado e já me perguntou se não gostaria de ficar em sua casa, enquanto ambos estiverem hospitalizados, pois se os sintomas são os mesmos é capaz de minha mãe também ficar. Agradeci, mas preferia ficar em casa, onde terminaria de organizar tudo para quando eles voltassem. Ele me aconselhou a ligar para meu tio em São Paulo para explicar o que está acontecendo, mesmo porque tenho apenas dezessete anos e não poderia assinar uma série de documentos.

            Quando cheguei ao Hospital onde mamãe ficaria, ele já estava me esperando para assinar por mim os papéis de internação.  Quando mamãe entrou já entubada para a UTI, desabei e chorei tudo o que me sufocava. Não tinha coragem de ligar para meu tio. Ele estava tão longe e tinha nascido o meu terceiro primo. A mulher precisaria dos cuidados dele. Só esperamos o bebê nascer para viajar. Não considerava justo fazer isso com a família. Eles já tinham um casal ainda pequenos. E depois, o que ele poderia fazer? Não nos deixaram até agora ver o meu pai. E ele ainda tinha a responsabilidade de cuidar de minha avó. Aí ficava sempre com o celular na mão e o coração na boca. O que fazer? O que dizer a todos? Que eles tinham saído?

            Jamais eles fariam isso, sem me levar. E depois, vovó poderia ligar para os celulares deles e, claro, ambos estão em casa. Ouvi o de minha mãe tocar e vi que era minha avó. Fingi que não tinha escutado para que minha consciência ficasse mais tranquila. De qualquer forma, teria que ter uma desculpa para o fato de eles estarem sem seus aparelhos, pois nunca esqueceram os respectivos. Estavam sempre ligando para algum cliente. Que desculpa seria eficaz? O celular parecia queimar a minha mão.  Molhei minhas boas lembranças, querendo que elas se afogassem em minhas lágrimas.

            Acabei dormindo no sofá da sala e acordei com a vizinha batendo à porta, que estava escancarada. Com meus pensamentos tortos, esqueci-me de trancar. Pediu-me para tomar cuidado e fechar bem as janelas, pois em Macau costuma chover muito de madrugada.  Então, peremptoriamente, resolvi esquecer minha avó, meu tio, minha tia, meus primos e foquei apenas no meu principal problema: o fato de que meus pais estão internados em um hospital em Macau, uma cidade que não conheço, na China, um país que só conheço de ouvir falar pela  importância comercial que se tornou para o mundo e tem uma coisa que me assusta muito: eles comem carne de cachorro.

            Agora o apartamento que eu achava pequeno, parece enorme. O rio das Pérolas que eu achava tão lindo com sua ponte majestosa, agora parece um riachinho com um pontilhão mata-burro. Ao invés de 55km, tinha 5 metros. A solidão nos prega muitas peças. Comecei a ouvir certos ruídos, pois o silêncio era mortal e cheio de incertezas. Nessas horas, confesso que ficava com medo. Meus pais estavam tão esperançosos. Pensavam, inclusive em comprar um apartamento aqui tão logo conseguissem vender o de São Paulo. Aí, compraria um pequeno para mim para que, com a maioridade, governasse a própria vida. Já tínhamos até visto um lindo perto da cidade Universitária em São Paulo. Sonhava, mas sempre que ligava a Tv. o invisível mais famoso do planeta, pois já se espalhara para outros continentes, estava lá nas principais manchetes da mídia, deixando atrás de si covas incontáveis e políticos estressados pela rivalidade insana do vírus que empanava suas próximas reeleições para continuidade no poder.

            Agora nominado COVID-19, ofuscando o brilho do homem mais poderoso do mundo, que teve que regredir ao seu primeiro comentário, considerando o famoso destruidor do homo sapiens como um simples agente gripal. Todos os dias eu ia dormir com medo de esperar por um amanhã que contivesse em seu bojo a notícia da morte ou de meu pai ou de minha mãe. Já havia se passado dez dias, e tive que remanejar minha volta ao Brasil para mais dez dias. Estremeci quando o celular tocou. Reconheci de imediato a voz do médico de papai. Ele foi direto às condolências e me pediu para chamar um responsável para o reconhecimento do corpo e dar a autorização para a cremação. Fui monossilábica, pois a voz embargada pelo choro, fez-me ter uma convulsão nervosa. O choro implodia, sufocando-me. Eu não conseguia acreditar que meu pai estava morto. Era como se as minhas lágrimas estivessem represadas por uma comporta. Toquei a campainha da minha vizinha de frente. Desmaiei em frente à porta dela.  Acordei em minha cama. Ela segurava a minha mão. Quando lhe contei o que tinha acontecido com meus pais, ela chorou comigo. Era uma senhora de idade que morava sozinha. Disse-me que o filho casado é quem lhe fazia o supermercado e que todos os canais televisivos estão implorando para que fiquemos em casa. Isolamento total. A idade de maior risco era dos idosos. Papai tinha 62 anos de idade. Minha mãe também. A maioria dos idosos dos Asilos estava morrendo. Tomei o relaxante que a vizinha me trouxe e liguei para o Sr. Robson que prontamente se ofereceu para o reconhecimento do corpo e as demais providências. Fui, depois de um tempo necessário para que passasse o efeito do remédio, ao Hospital onde mamãe está internada. O médico que a atende disse que ela deveria ficar mais uns dias para se recuperar, pois estava muito fragilizada pelo excesso de remédios.

            Agora já respirava sem ajuda dos aparelhos, mas eu ainda não deveria vê-la. Assim que tivesse alta, eles me telefonariam. O médico me deu mais umas máscaras descartáveis e umas luvas para maior proteção, principalmente, para usar nos transportes públicos. Aproveitei que já estava na rua e comprei mais algumas coisas para me alimentar e para aguardar a mamãe quando saísse do Hospital. Comprei umas flores para enfeitar a mesa como ela gostava: margaridas com uns raminhos. Trouxe também um bolo e algumas frutas para a vizinha, que tão gentilmente tinha me socorrido e dei a ela, apesar do isolamento, umas máscaras e um par de luvas. Ficamos muito amigas.

            Ela me lembrava minha avó que até então, eu não tinha coragem de dizer que o filho tinha morrido. Eu dizia que ambos estavam muito atarefados ajudando a montar o novo escritório de advocacia. Um dia, ela explodiu em choro e me disse que tanto ele quanto mamãe tinham se esquecido dela. Eu me segurei para não chorar também. Já não tinha mais vontade de voltar ao Brasil. Pelo noticiário, o COVID-19 já estava no continente americano e, segundo as previsões dos mais entendidos no assunto, logo mais atingiria a América do Sul. Então, o que eu perderia se ficasse na Ásia que já estava se recuperando? Estava apenas esperando que as cinzas de papai fossem liberadas, os casos eram tantos que demoravam de 10 a 20 dias para a liberação.  Minha vida virou uma eterna espera. Esperaria que mamãe melhorasse para que estudássemos a possibilidade de ficarmos ou voltarmos. Fiquei ficando mais confortável, pois eram raros os aparecimentos de mortes entre as pessoas de minha idade. Então, pedi para a vizinha liberar o seu filho do compromisso com o supermercado, pois ele era de um grupo também de alto risco, por causa da comorbidade que tem: o diabetes e hipertensão ligadas à obesidade. Sem dúvida, estávamos em um estado de guerra e, o pior, sem saber em quem atirar.

            A essas alturas, diante dos trabalhos admiráveis do pessoal comprometido em encontrar solução para esse problema emblemático – como remédios eficazes ou uma vacina–, mudei minha escolha para a especialidade médica: faria infectologia. Os remédios que apareciam eram apenas paliativos e pareciam indiferentes ao vírus. E todos os dias ouvíamos as estatísticas do terror que estava se espalhando pelo mundo. Quando meu telefone tocava, meu coração quase parava. E comecei a procurar notícias, especificamente, sobre o Brasil, cuja rede de saneamento básico é tão vulnerável. Fiquei impactada ao ler que uma das maiores cidades de São Paulo tem problemas de esgotamento sanitário. Como pode? O que será dessa gente quando chegar esse vírus sorrateiro?  E como os agentes da saúde podem exigir que favelados tenham água suficiente para a lavagem de mãos e dinheiro para a compra de álcool em gel? Essas questões que parecem tão primárias me angustiavam. E os moradores de rua? Eu nem entrava mais no Facebook porque muitas notícias eram fake news. Isso nos causava pânico. Insegurança.

            Passava horas na varanda observando o movimento das pessoas. Quando alguém se aproximava mais de outro, via-se que este último saía de perto como se estivesse fugindo de um demônio ou de um leproso. Eu lavava tanto as mãos e usava tanto álcool em gel que a pele ardia. Chegava do supermercado e higienizava as compras. As minhas e as da vizinha. Uma noite, acordei no meio da madrugada, pois tinha sonhado que estava presa em um lugar escuro, como se fosse o porta-malas de um carro. Tudo era forrado com veludo preto. Estava ficando sem fôlego e comecei a bater nas laterais e em todos os lugares que podia. No sonho eu gritava que precisava urgente de um respirador. Ouvia o ronco do carro, mas o motorista não me ouvia. Acordei suada. Com falta de ar. Lembrei-me da madrugada que acordei com a tosse de papai e rezei para que ele que me ajudasse a encontrar uma solução para minha vida. O que eu deveria esperar por esse novo amanhã? E o pior, todos os amanhãs se tornarão o hoje. Que país irei encontrar se voltar? E que país será esse depois que toda essa situação se acomodar? Como quaisquer países sobreviverão com suas finanças?

            Não me sentia uma adolescente. Parecia que nestes últimos dias envelhecera dez anos.  Uma hora pensava que, para minha mãe, o melhor seria ficar aqui, pois o seu emprego está assegurado e, neste caso, ficarei também. Aí, de repente, eu pensava que seria melhor se voltássemos para São Paulo. Eu terminaria o colegial, entraria na faculdade de Medicina da USP, arrumaria um serviço de meio período à noite como uma atendente em um grande Hospital, quiçá, o de Clínicas da cidade. Agora, mais do que nunca, eu queria trabalhar na área da saúde. Aí, vinha outro pensamento. Quem sabe, mamãe não retornaria para seu emprego? Era um criminalista de renome. Tinha conquistado uma boa carteira de clientes. E depois, teríamos o apoio de nossa família.

            No hoje que já foi meu amanhã, saí para o supermercado com a listinha da vizinha e enquanto esperava o elevador, o meu celular tocou e meu coração gelou. Reconheci de imediato a voz da psicóloga do Hospital em que mamãe estava e, ela com a voz entrecortada me deu a tapa que eu mais temia levar na cara: mamãe não tinha sobrevivido ao COVID-19. Tivera uma melhora, mas foi um falso passo dado em direção à morte. Corri novamente para os braços de minha vizinha. Choramos agora a minha dupla orfandade. O COVID-19 me jogava sem o mínimo dó na realidade que se tornaria minha vida. Chorei o que foi preciso chorar. Levantei a cabeça e me preparei para o reconhecimento do corpo e a autorização para a cremação de minha mãe.

            Jamais imaginaria que o orgulho por ter alcançado a minha maioridade fosse tão catastrófico! Olhei mais uma vez na folhinha sob o imã da geladeira e lá estava escrito – 25 de maio de 2020. Dia em que fiz exatos dezoito anos. Idade suficiente para autorizar a desintegração de minha mãe em pó. Muitos vitimados morriam à mingua, esperando em um corredor. Criaram os hospitais de campanha que lotavam rapidamente. As vítimas pareciam moscas aprisionadas em uma armadilha sem mel. Havia atrasos para entrega de respiradores. Era uma luta infernal, desumana e desigual. Infelizmente, muitos seres humanos se tornaram simples números que mostravam implacáveis as estatísticas de mortes por dia. Víamos valas sendo abertas e ataúdes baixados sem nos dar conta, às vezes, que ali se enterravam histórias daquelas vidas. Sonhos abortados, planos adiados.

            De uma forma ou de outra, sempre este espectro deixando sua nódoa indelével afrontando a humanidade com sua perversa invisibilidade. Para mim, sempre que vou dormir, depois de rezar pelos meus pais e por todos, fica no ar a questão: o que me espera o amanhã? Tive sérios problemas para conseguir marcar meu retorno ao Brasil. O Sr. Robson mais uma vez veio em meu socorro. Conseguiu, explicando detalhadamente a minha situação que conseguissem remarcar. Ficaria mais cinco dias esperando. As aulas estavam paralisadas, mas meu coração também de tanta dor e solidão. Sentia-me uma criança em um corpo de mulher. Precisava urgentemente de minha família, mesmo que não pudéssemos nos abraçar. Apenas o olhar já seria suficiente. Comecei a assistir as aulas on-line. Um novo mundo estava nascendo. A máquina criada pelo homem servindo ao homem como um importante meio de comunicação.

            Abraçávamo-nos através das ondas magnéticas. E, ao mesmo tempo, o homem era castigado por não respeitar o Planeta onde habita. Tive uma festa de aniversário e uma homenagem póstuma feita pelas amigas da Drª. Fernanda e dos amigos do Dr. Miguel, meus pais. Fiz uma caipirinha como ambos gostavam e confesso, embebedei-me brindando à minha entrada na fase adulta. Chorava e ria olhando para as caixinhas que continham os meus pais. Brindei junto aos nossos amigos brasileiros e com minha vizinha querida que me fez um bolo delicioso e muitos brigadeiros que representavam a minha despedida da adolescência. Agora, seria uma adulta e tinha que manter a forma, dizia ela brindando com gente que nem conhecia.

Ao aterrizar e ouvir a advertência para não esquecermos nossas bagagens de mão, ninguém entendeu o porquê comecei a chorar, talvez tenham pensado era de felicidade, por estar voltando para casa. Eu jamais esqueceria aquela bagagem de mão.

            Enquanto esperava no saguão pelo meu tio, reli a frase de Mahatma Gandhi: “quando estou preocupado, lembro-me que a verdade e o amor sempre triunfaram em todos os tempos. Sempre.” Colocá-la-ei em uma placa, como símbolo da solidariedade e da empatia que são armas que devemos empunhar em defesa da vida.  Colocarei os nomes de meus pais e de Dª. Maria Pia Ferreira – minha vizinha querida – uma portuguesa com nome de santa e coração de anjo, que também voou nas asas invisíveis do vírus dias após. E cuidarei para que a minha vida e de meus descendentes, sejam motivos de alegria para meus pais, que repousam naquela pequena malinha que eu carregava com tanto cuidado. Ali estavam o símbolo da minha vida e o melhor que tenho em meu caráter. Meu DNA. O que será o amanhã? Essa frase estigmatizou minha alma como uma tatuagem. Nem preciso pensar e ela aparece, como uma mãe zelosa ou um labrador fiel. Em guarda. Sempre. Pois, estou sempre à espera de um amanhã.  Se ele chegar é porque estou viva. FIM.


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