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Estupro da terra

Estupro da terra

Podemos até dizer que esta é uma "paisagem" bonita. Para nossos padrões estéticos, realmente pode haver algo de belo, singular e exótico nesta fotografia. 

Mas se há alguma beleza neste cenário, fruto da destruição causada  pela ganância humana, o mérito é todo dela: a terra e suas formas de defesa. 

Mas há que olhar com mais atenção para perceber que este é um "lugar" árido. Uma imensa voçoroca que começou a se gestar em 1987 quando uma empresa desmatou a área onde há pelo menos 12 nascentes de água. Este terreno se destinaria a construção de um condomínio. 

De lá pra cá, as  fendas na terra se aprofundaram. A água da chuva cria algo semelhante a estradas, caminhos...nas margens desta "estrada", terras multi-coloridas revelam as entranhas que ela, a  terra, não queria mostrar.

É uma espécie de escultura efêmera, que se modifica todos os dias. 

Em 2015 o  artista Marcelo Chardosim denominou este espaço Parque da Solidariedade, distribuiu cartazes pelas ruas  convidando a população a proteger o local. 

"De lá prá cá" algo muito comovente aconteceu. As comunidades dos arredores passaram a proteger este Parque "fictício". Retiram o lixo, plantam árvores nativas, e até começam a criar hortas comunitárias ali em volta, artistas de diversas áreas utilizam o espaço como fonte de inspiração. Estas pessoas ocupam seu tempo livre para restaurar a dignidade desta terra devastada. 

O sistema patriarcal não respeita a vida, o princípio feminino da terra.

"Eles chegam pisando com passos fortes, arrancam sua cobertura e penetram-na com seus falos de aço. Deixam os sulcos abertos as entranhas aparentes.

Ela sangra e já não consegue se recompor.

As chuvas lavam suas partes e levam para longe. Despedaçada, novas e desconhecidas feridas rompem, revelando áridas cores.

Árida e desapropriada, ela é olvido”. Trecho do trabalho do qual esta  fotografia faz parte, um projeto de documentação fotográfica e divulgação da ação das comunidades que vivem em torno do chamado "Parque da Solidariedade" na cidade de Alvorada, Rio Grande do Sul, e que precisa de apoio para que se torne uma área de preservação ambiental.

Belas Artes

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suzana beatriz pires
suzana beatriz pires Seguir

Sou repórter fotográfica atualmente com prioridade para a fotografia ambiental, ligada a projetos que trabalham com as mudanças climáticas.

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